Relatório da PF liga celular de Vorcaro a Moraes, contrato de R$ 131 milhões e 52 mensagens

Documento de 218 páginas cruza registros do celular do ex-controlador do Banco Master, identifica mensagens enviadas ao contato “Alexandre de Moraes BRASILIA”, aponta participação em contrato com escritório da esposa do ministro e reúne referências a encontros, eventos e pedidos envolvendo autoridades

Um relatório de 218 páginas produzido pela Polícia Federal coloca sob nova pressão a relação entre Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

A análise foi feita a partir do iPhone apreendido com Vorcaro durante a Operação Compliance Zero e reúne mensagens, registros de aplicativos, metadados de arquivos, contatos telefônicos e referências a reuniões ocorridas entre 2023 e 2025.

O ponto mais relevante está na identificação de um número salvo no aparelho como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. Segundo a PF, depois de escrever textos no aplicativo Notas e fazer capturas de tela, Vorcaro enviava mensagens, em poucos segundos, justamente para esse contato.

A polícia encontrou 52 notas relacionadas ao mesmo padrão de comunicação. Parte delas teria sido enviada pelo WhatsApp em modo de visualização única, recurso que apaga a imagem depois de aberta. Mesmo assim, arquivos temporários e registros internos do telefone permitiram reconstruir a sequência de ações.

PF cruzou capturas de tela, arquivos ocultos e registros do WhatsApp

A metodologia utilizada pela investigação é um dos pontos centrais do documento.

Os peritos identificaram que Vorcaro abria o aplicativo Notas, escrevia ou alterava um texto, fazia uma captura da tela e logo depois acessava o WhatsApp.

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O sistema operacional do aparelho também criava arquivos temporários em PDF com o mesmo conteúdo. Esses arquivos permaneciam armazenados em áreas internas do telefone e serviram como elemento adicional de comparação.

A PF cruzou:

  • horário de abertura do aplicativo Notas;
  • momento da captura da tela;
  • criação automática do arquivo PDF;
  • abertura do WhatsApp;
  • registro de envio da mensagem;
  • número do destinatário.

Em vários episódios, o intervalo entre a captura e o envio foi de poucos segundos.

A investigação concluiu que o terminal que recebia essas mensagens estava salvo no aparelho como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.

O relatório não recuperou todas as respostas do destinatário. Esse detalhe é decisivo para a leitura correta do material: os textos encontrados mostram o que Vorcaro escreveu e enviou, mas nem sempre mostram o que recebeu em retorno.

Mensagens citavam Banco Central, PF e Procuradoria-Geral da República

Uma das notas analisadas é de 30 de outubro de 2025.

Nela, Vorcaro escreve que teria recebido informações informais de integrantes do Banco Central e menciona pressão da Polícia Federal e do Ministério Público.

Na mesma mensagem, afirma ser importante “reforçar com Andrei e Paulo” para impedir determinada ação contra ele.

A própria PF registra que os nomes podem se referir a Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e Paulo Gonet, procurador-geral da República.

A redação usada pelo relatório é cautelosa. A polícia não afirma nesse trecho que Andrei ou Gonet tenham atendido qualquer pedido.

O documento registra somente que eles aparecem em notas de Vorcaro e que essas referências passaram a integrar a apuração.

Contrato com escritório da esposa de Moraes aparece entre os principais achados

Outro ponto sensível está no contrato firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, ligado a Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

Em 11 de janeiro de 2024, uma minuta foi enviada a Vorcaro. Os metadados analisados pela PF apontaram que o arquivo tinha como último modificador um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.

Uma versão posterior também apresentou esse nome entre os metadados.

O contrato foi assinado em janeiro de 2024 e previa remuneração mensal milionária. Reportagens posteriores estimaram seu valor total em aproximadamente R$ 131 milhões.

O escritório afirmou que Moraes foi consultado pelo setor de compliance para verificar eventual existência de impedimentos legais antes da contratação e negou irregularidades.

A existência do acesso ao documento, isoladamente, não comprova favorecimento ou interferência do ministro em benefício do banco.

O dado ganha peso investigativo porque aparece junto de uma sequência muito maior de contatos, encontros e mensagens mapeadas pela PF.

Registros apontam encontros desde 2023

O relatório também reconstrói episódios anteriores à assinatura do contrato.

Em dezembro de 2023, Fábio Faria teria intermediado contatos entre Vorcaro e um interlocutor associado a Alexandre de Moraes.

Poucos dias depois, o número identificado como “Alexandre de Moraes BRASILIA” foi salvo no aparelho do banqueiro.

Há referências a encontros em Brasília, Campos do Jordão e outras ocasiões.

Mensagens encontradas no celular de Vorcaro também fazem menção recorrente a encontros com “Alexandre” ao longo de 2025.

O documento cita registros de abril, maio e agosto daquele ano nos quais o banqueiro afirma estar ou se encontrar com “Alexandre Moraes”.

A sucessão dessas referências é usada pelos investigadores para reconstruir a proximidade entre os interlocutores, mas cada episódio ainda precisa ser analisado individualmente quanto à finalidade.

Evento em Londres aparece em dezenas de mensagens

Smartphone Sobre Mesa De Investigação Mostra Sequência Entre Aplicativo De Notas, Captura De Tela E Mensagens, Ao Lado De Documentos De Análise
A Polícia Federal cruzou horários de notas, capturas de tela, arquivos temporários e registros do WhatsApp para reconstruir a dinâmica das comunicações analisadas

A relação também aparece na organização de eventos realizados ou planejados em Londres.

Segundo o relatório, Vorcaro escreveu em abril de 2024 que organizava um evento “super exclusivo” com Alexandre de Moraes.

Outras mensagens tratam de convidados, transporte de ministros, composição de painéis e pedidos atribuídos ao ministro.

Em 2025, uma segunda edição estava sendo preparada.

Mensagens analisadas pela PF indicam que participantes e convites eram discutidos com referências a Moraes e Viviane Barci de Moraes. O evento acabou cancelado.

Esses registros ampliam o material que agora precisará ser examinado pelo STF e pelos órgãos responsáveis.

O relatório não equivale a uma acusação criminal

Apesar da quantidade de documentos, há uma diferença importante entre registro de contato, indício e comprovação de crime.

A própria Polícia Federal ressalta que o relatório reúne elementos já existentes no material apreendido e que não realizou, naquele momento, diligências específicas contra magistrados ou membros do Ministério Público.

O documento também afirma expressamente que a análise não é exaustiva.

Isso significa que a investigação ainda precisa esclarecer pontos como:

  • quais mensagens efetivamente foram lidas;
  • quais respostas foram enviadas;
  • se pedidos mencionados foram atendidos;
  • qual era a finalidade de cada reunião;
  • qual participação concreta cada autoridade teve nos fatos;
  • se houve alguma conduta ilícita.

Moraes já negou ter recebido determinadas mensagens atribuídas ao contato identificado pela PF. O escritório Barci de Moraes também negou irregularidades no contrato.

Caso chegou ao centro de uma disputa dentro do STF

Os desdobramentos deixaram de ficar restritos ao relatório.

André Mendonça levou as informações ao Supremo e determinou medidas relacionadas à investigação. Paulo Gonet pediu a nulidade do procedimento, argumentando que o relator teria ultrapassado os limites de sua atuação.

Na sequência, decisões envolvendo o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, provocaram uma disputa entre integrantes da Corte.

O caso também passou a se conectar diretamente ao julgamento sobre o afastamento do chefe da Polícia Federal, interrompido após pedido de vista de Gilmar Mendes.

Em 9 de setembro, o presidente do STF, Edson Fachin, suspendeu decisões conflitantes de André Mendonça e Flávio Dino sobre Andrei Rodrigues e convocou sessão extraordinária do plenário para 15 de setembro, às 10h.

Até essa definição, Andrei permanece no comando da Polícia Federal.

Plenário do STF terá de decidir o próximo passo

A próxima etapa passou a ser institucional.

O plenário terá de avaliar como prosseguir diante de um relatório que envolve diretamente um ministro da própria Corte, o procurador-geral da República e a direção da Polícia Federal.

O documento não fecha a investigação. Faz o oposto: organiza uma grande quantidade de registros e cria novas perguntas que ainda dependem de confirmação.

A força do relatório está menos em uma única mensagem e mais na combinação de 52 notas, contatos recorrentes, metadados de contratos, registros de encontros e comunicações próximas a decisões relevantes para o Banco Master.

O julgamento marcado para 15 de setembro deverá definir se e como esses elementos serão formalmente aprofundados.
* O Jornal Regional News coloca à disposição de interessados o relatório oficial da PF

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