Uma venda é feita por R$ 1.000. Hoje, em muitas situações, o dinheiro entra integralmente no caixa da empresa e os tributos são recolhidos depois, conforme os prazos fiscais.
A reforma tributária começa a mudar essa lógica. A partir de 2027, o Brasil inicia a implantação de um sistema capaz de separar IBS e CBS durante o próprio pagamento da operação.
É o chamado split payment. Em vez de todo o valor chegar primeiro ao vendedor, a parcela correspondente aos tributos poderá ser direcionada ao recolhimento durante a liquidação financeira, enquanto a empresa recebe o restante.
A mudança está prevista na Lei Complementar 214/2025, posteriormente alterada pela Lei Complementar 227/2026, e terá implantação gradual.
Para quem paga, boa parte do processo pode ocorrer sem ser percebida. Para quem vende, a mudança pode aparecer diretamente no caixa.
O que muda em uma venda
Na lógica atual, o valor da venda entra na conta da empresa e permanece disponível até o momento do recolhimento dos impostos.
Com o split payment, documento fiscal, pagamento e tributos da operação passam a estar conectados.
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Em um exemplo simplificado, uma venda de R$ 1.000 pode ter R$ 200 de IBS e CBS efetivamente a recolher. Em vez de os R$ 1.000 entrarem primeiro na conta da empresa, o sistema poderá direcionar R$ 200 ao recolhimento e liberar R$ 800 ao vendedor.
O cálculo real dependerá das regras da operação, dos créditos tributários existentes e de valores que já tenham sido extintos.
A consequência é relevante: parte do dinheiro que hoje permanece temporariamente disponível pode deixar de circular pelo caixa da empresa.
Negócios acostumados a receber primeiro e recolher impostos semanas depois poderão precisar rever capital de giro, despesas e prazos com fornecedores.
Não significa imposto cobrado sobre qualquer Pix
A presença dos meios eletrônicos de pagamento no novo sistema pode provocar uma interpretação equivocada.
O split payment não transforma uma simples movimentação financeira em fato gerador de IBS ou CBS. O mecanismo está relacionado a operações com bens ou serviços sujeitas aos novos tributos.
Uma transferência entre pessoas, um envio de dinheiro para um familiar ou outra movimentação que não corresponda a uma operação tributável não passa a gerar imposto apenas porque foi feita por Pix.
A mudança está na possibilidade de o sistema de pagamento participar diretamente da liquidação do tributo quando houver uma operação comercial correspondente.
O imposto começa a ser separado já em janeiro de 2027?
A implantação está prevista para começar em 2027, mas será gradual.
Isso significa que o split payment não deverá alcançar simultaneamente todas as empresas, operações e meios de pagamento no primeiro dia do ano.
A Lei Complementar 214 prevê implementação progressiva, enquanto a operação do sistema dependerá da integração entre instituições financeiras, prestadores de pagamento, sistemas fiscais e administrações tributárias.
Portanto, 2027 marca o início de uma nova etapa, e não uma mudança instantânea em todas as transações realizadas no país.

O sistema já está sendo preparado
Em maio de 2026, Receita Federal e Comitê Gestor do IBS autorizaram a publicação da documentação técnica da Plataforma Pública do Split Payment.
O projeto já possui Manual de Integração atualizado em agosto e especificações de API para conexão dos sistemas envolvidos.
Bancos, instituições de pagamento, empresas de tecnologia, emissores de documentos fiscais e administrações tributárias precisarão trocar informações dentro dessa estrutura.
A preparação também passa pelos documentos fiscais. Desde janeiro de 2026, contribuintes começaram a lidar com novas exigências relacionadas ao IBS e à CBS, em um ano dedicado à adaptação dos sistemas que sustentarão as próximas fases da reforma.
Venda parcelada também entra na lógica
O parcelamento não deixa a operação fora do mecanismo.
Quando a própria venda tiver pagamento parcelado, a segregação de IBS e CBS deverá acompanhar proporcionalmente a liquidação das parcelas.
A antecipação de recebíveis também não elimina a obrigação prevista pelo sistema.
O ponto merece atenção principalmente de empresas que antecipam vendas feitas no cartão para reforçar o caixa, porque a mudança pode interferir tanto na rotina tributária quanto no planejamento financeiro.
Simples Nacional terá decisão importante em setembro
Para pequenos negócios, outra mudança exige atenção.
As novas regras incorporam IBS e CBS ao Simples Nacional a partir de 2027, mas permitem que empresas optantes pelo regime escolham, nas condições regulamentadas, recolher esses dois tributos pelo regime regular, fora do recolhimento unificado.
Para o primeiro semestre de 2027, essa opção deverá ser feita entre 1º e 30 de setembro de 2026.
Quem pretende manter IBS e CBS dentro do próprio Simples não precisa fazer essa escolha.
A decisão de recolher os dois tributos separadamente precisa ser analisada com cuidado, porque pode interferir no aproveitamento de créditos, na relação com clientes empresariais, na formação de preços e na rotina contábil.
A mudança vai além de trocar impostos
A reforma tributária costuma ser apresentada pela substituição de tributos antigos por IBS e CBS.
O split payment mostra que a transformação vai além.
O país está construindo uma estrutura capaz de aproximar eletronicamente nota fiscal, pagamento, identificação do imposto e arrecadação.
Para o consumidor, boa parte desse processo poderá ocorrer sem ser percebida. Para a empresa, a diferença tende a aparecer diretamente no caixa.
Por isso, olhar apenas para as futuras alíquotas não será suficiente. Empresas também precisarão saber quanto dinheiro efetivamente chegará à conta depois das vendas, como seus créditos serão tratados e quanto capital de giro será necessário para manter a operação.
O split payment começa justamente nesse ponto: o imposto deixa de ser apenas uma obrigação calculada depois da venda e passa a fazer parte da própria arquitetura pela qual o dinheiro circula.







