O sorvete que durante muito tempo foi associado a uma sobremesa simples de verão hoje divide espaço com gelatos artesanais, picolés elaborados, versões com menos açúcar, combinações incomuns e lojas que transformaram o produto em passeio.
A mudança aparece justamente às vésperas do Dia Nacional do Sorvete, celebrado nesta quarta-feira, 23 de setembro.
A data foi criada pela Associação Brasileira das Indústrias e do Setor de Sorvetes, a ABIS, para incentivar o consumo e aproximar a comemoração da chegada do período mais quente do ano.
E o setor chega à data com números expressivos.
O faturamento da cadeia de sorvetes passou de R$ 14,4 bilhões em 2020 para R$ 19,5 bilhões em 2025, crescimento de aproximadamente 35% em cinco anos. Entre 2024 e 2025, a expansão foi de 5,8%.
23 de setembro foi escolhido para marcar a chegada do calor
A escolha da data não aconteceu por acaso.
Setembro representa uma virada importante para fabricantes e sorveterias porque o aumento das temperaturas costuma elevar a procura.
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A ABIS instituiu o Dia Nacional do Sorvete justamente como uma forma de estimular o consumo e chamar atenção para um produto que historicamente enfrenta forte sazonalidade.
Este ano, a data chega logo depois da mudança de estação. A primavera começou em 22 de setembro e abre um período com aumento gradual das temperaturas e mudanças na rotina.
Para quem trabalha com sorvete, essa mudança costuma aparecer diretamente no balcão.
Dias mais quentes favorecem compras por impulso, passeios em família e consumo fora de casa, especialmente no período da tarde e nos fins de semana.
Mesmo com temperatura instável, o sorvete continua bem-vindo
A chegada da primavera não significa uma sequência imediata de dias quentes.
Setembro ainda pode alternar tardes abafadas, manhãs frias, chuva, vento e quedas rápidas de temperatura. Essa instabilidade faz parte da transição entre as estações e muda bastante a sensação térmica ao longo de poucos dias.
Mesmo assim, o sorvete deixou de depender exclusivamente daquele calor intenso de verão.
Hoje ele aparece depois do almoço, como sobremesa no jantar, durante um passeio em família ou em um encontro entre amigos. Em lojas fechadas, shoppings e gelaterias, o consumo também fica menos ligado às condições externas.
Isso ajuda a explicar por que o setor tenta reduzir cada vez mais a ideia de que sorvete combina apenas com dias muito quentes.
Uma tarde de sol pode aumentar a procura, mas uma mudança brusca no tempo já não significa necessariamente balcão vazio.
O sorvete tradicional ganhou novos concorrentes na própria vitrine
Chocolate, creme, morango e flocos continuam ocupando espaço nas sorveterias.
A diferença é que o consumidor encontra muito mais formatos ao lado deles.
Gelaterias artesanais ganharam visibilidade, lojas especializadas em picolés ampliaram a variedade de ingredientes e redes passaram a trabalhar com produtos que combinam sorvete, bebidas geladas, frutas, biscoitos e coberturas.
A inovação tornou-se uma ferramenta importante para atrair o consumidor.
Empresas do setor relatam que novos sabores ou produtos podem aparecer em ciclos de poucos meses, porque novidade e experimentação ajudam a aumentar a frequência de visitas.
A pessoa não entra mais necessariamente numa sorveteria apenas para escolher entre três sabores conhecidos.
Pode querer experimentar pistache, frutas regionais, combinações doces e salgadas ou receitas inspiradas em sobremesas tradicionais.
Pequenos negócios ainda têm peso enorme
Apesar da presença de grandes marcas, o setor continua fortemente ligado a empresas de pequeno porte.
Dados citados pela ABIS indicam que cerca de 92% das marcas do segmento são formadas por micro e pequenas empresas. O Sudeste responde por aproximadamente 52% do consumo.
Isso ajuda a explicar por que o mercado é tão fragmentado.
Uma sorveteria de bairro pode disputar o mesmo consumidor com franquias, supermercados, gelaterias artesanais e grandes fabricantes.
A cadeia também vai muito além da loja.
Um levantamento do Senai-SP em parceria com entidades do setor estimou cerca de 274,8 mil postos de trabalho diretos e indiretos ligados a produção, ingredientes, embalagens, logística, distribuição e comercialização de sorvetes.
Consumo ainda tem espaço para crescer
Mesmo com o avanço do faturamento, o consumo médio ainda pode aumentar.
A estimativa divulgada pelo setor aponta consumo per capita de cerca de 7,7 litros por pessoa ao ano.
O volume fica abaixo de mercados onde o produto faz parte da rotina mesmo em meses frios. A Nova Zelândia, usada como comparação pelo setor, supera 20 litros por habitante ao ano.
Uma das barreiras históricas é cultural.
Por aqui, o sorvete ainda está muito associado ao calor, enquanto em outros mercados é consumido durante praticamente todo o ano.
Essa característica também explica por que setembro tem importância comercial tão grande.
Novas redes querem uma parte desse mercado
O interesse pelo setor também pode ser medido pelos planos de expansão de grandes grupos.
A rede chinesa Mixue, conhecida por vender sorvetes e bebidas a preços baixos, anunciou plano de investimentos de aproximadamente R$ 3 bilhões e pretende chegar a cerca de mil lojas até 2030.
A entrada de redes internacionais aumenta a disputa por localização, preço e frequência de consumo.
Esse modelo trabalha com uma lógica diferente de muitas gelaterias artesanais: cardápio simplificado, produção em escala e preços capazes de estimular compras recorrentes.
Ao mesmo tempo, negócios independentes buscam diferenciação em ingredientes, produção própria e experiência dentro da loja.
Sorveteria também virou lugar de passeio
Essa transformação ajuda a explicar um comportamento cada vez mais comum.
A ida à sorveteria passou a funcionar como programa.
Famílias saem depois do jantar, jovens se encontram em lojas que permanecem abertas à noite e consumidores escolhem estabelecimentos pela apresentação dos produtos e pelo ambiente.
O valor da experiência ganhou importância.
Isso aparece principalmente em gelaterias e lojas artesanais, onde o produto muitas vezes é preparado diante do cliente ou servido em apresentações pensadas para chamar atenção.
A sobremesa deixa de ser apenas o último item de uma refeição e vira o próprio motivo da saída.
Nem todo sorvete é igual
A variedade também exige atenção do consumidor.
Produtos vendidos como sorvete, gelato, sobremesa congelada ou picolé podem ter composições diferentes.
Quantidade de gordura, açúcar, leite, frutas e outros ingredientes varia bastante entre marcas e receitas.
Versões sem lactose, com menos açúcar ou feitas com ingredientes vegetais ampliaram as opções para pessoas que procuram alternativas específicas.
Isso não significa que um tipo seja automaticamente melhor que outro. A composição deve ser observada no rótulo ou informada pelo estabelecimento quando houver alguma restrição alimentar.
Uma data que chega com mercado mais disputado
O Dia Nacional do Sorvete de 2026 encontra um setor diferente daquele de alguns anos atrás.
As sorveterias artesanais ganharam espaço, grandes redes ampliaram cardápios, novos investidores enxergam oportunidades e o consumidor passou a encontrar muito mais opções.
O tradicional sorvete de massa continua presente, mas agora divide a vitrine com gelatos, picolés, bebidas e receitas que mudam rapidamente.
E mesmo quando o tempo alterna entre sol, chuva, calor e uma queda repentina de temperatura, o produto continua encontrando espaço na rotina.
Para muita gente, já não é preciso esperar o termômetro subir.
Basta escolher o sabor.
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