Ir a um posto de saúde, resolver um problema em um órgão público, pedir informação em uma estação ou tentar explicar uma necessidade pode se transformar em uma tarefa difícil quando não há ninguém preparado para se comunicar em Libras.
É esse tipo de situação que ganha destaque nesta quarta-feira, 23 de setembro, Dia Internacional das Línguas de Sinais.
A data foi criada pela Organização das Nações Unidas para ampliar a visibilidade das línguas de sinais e sua relação direta com direitos humanos, educação, saúde, trabalho e acesso a serviços. Em 2026, o tema escolhido pela ONU é “Declaring Deaf People’s Human Rights”, com foco na efetivação dos direitos das pessoas surdas em diferentes áreas da vida.
Quando a falta de comunicação vira uma barreira
A dificuldade aparece em situações simples e também em momentos delicados.
Uma pessoa surda que chega a uma unidade de saúde precisa conseguir explicar sintomas, compreender uma orientação médica e receber informações sobre exames ou medicamentos.
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Em uma repartição pública, precisa entender exigências, prazos e documentos.
Em escolas, estações, delegacias, bancos ou atendimentos comerciais, a ausência de recursos de acessibilidade pode transformar uma conversa comum em dependência de terceiros.
O Ministério dos Direitos Humanos informou que mais de 12 mil violações de direitos humanos contra pessoas com deficiência auditiva e surdez foram registradas no Disque 100 em 2026.
O número ajuda a mostrar que acessibilidade não se resume à presença de uma rampa ou a uma adaptação física.
Comunicação também é acesso.
Libras é uma língua com estrutura própria
Um erro comum é imaginar que Libras seja apenas uma tradução palavra por palavra da língua portuguesa.
Não é.
A Lei nº 10.436, de 2002, reconhece a Língua Brasileira de Sinais como meio legal de comunicação e expressão e define Libras como um sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria.
A ONU informa que existem mais de 300 línguas de sinais no mundo, utilizadas por cerca de 70 milhões de pessoas.
Isso significa que língua de sinais não é universal.
Cada país e comunidade pode ter sua própria língua, com sinais, construções e características específicas.
Acesso a serviços públicos está entre os pontos mais sensíveis
A legislação brasileira também determina que o poder público e empresas concessionárias de serviços públicos criem formas institucionalizadas de apoiar o uso e a difusão da Libras.
Na área da saúde, a própria Lei nº 10.436 prevê atendimento adequado às pessoas com deficiência auditiva em instituições públicas e empresas concessionárias de serviços de assistência à saúde.
Esse ponto ganha importância quando o atendimento envolve informações médicas, consentimentos, diagnósticos ou situações de urgência.
Uma pessoa surda não deveria depender exclusivamente de um familiar, amigo ou acompanhante para compreender o que está acontecendo.
O mesmo vale para atendimentos relacionados a transporte, segurança, educação, benefícios públicos e outros serviços essenciais.
Tecnologia ajuda, mas não resolve tudo sozinha
Aplicativos, videochamadas, legendas automáticas e outros recursos digitais ampliaram as possibilidades de comunicação.
Essas ferramentas podem facilitar atendimentos e reduzir parte das barreiras, especialmente em locais que não contam com intérprete presencial.
Mesmo assim, tecnologia não substitui uma estrutura de atendimento acessível.
Sites sem vídeos legendados, formulários difíceis de navegar e serviços digitais sem recursos adequados continuam criando obstáculos.
A acessibilidade funciona melhor quando já está incorporada ao serviço, sem depender de improviso no momento em que a pessoa precisa de atendimento.
23 de setembro também marca uma data histórica
O Dia Internacional das Línguas de Sinais foi instituído pela Assembleia Geral da ONU em 2017 e começou a ser celebrado em 2018.
A escolha de 23 de setembro tem relação com a fundação da World Federation of the Deaf, a Federação Mundial de Surdos, criada em 1951.
Em 2026, a entidade completa 75 anos. O ano também marca duas décadas da adoção da Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.
A data faz parte da Semana Internacional das Pessoas Surdas, realizada entre 21 e 27 de setembro.
Setembro reúne outras datas ligadas à comunidade surda

O calendário oficial de saúde também registra o Dia Internacional das Línguas de Sinais em 23 de setembro.
Três dias depois, em 26 de setembro, é celebrado o Dia Nacional dos Surdos.
As duas datas colocam em evidência questões diferentes, mas conectadas: reconhecimento da língua, inclusão, autonomia e acesso a direitos.
Mais importante do que a comemoração isolada é observar se a pessoa surda consegue estudar, trabalhar, circular pela cidade, buscar atendimento e resolver tarefas do dia a dia sem depender constantemente de terceiros.
Quando isso não acontece, a barreira continua existindo.
O que fazer diante de uma violação de direitos
Casos de discriminação, negativa de atendimento ou outras violações podem ser denunciados pelo Disque 100.
O serviço é gratuito e funciona como canal nacional de recebimento e encaminhamento de denúncias relacionadas a direitos humanos.
A possibilidade de atendimento acessível também faz parte dessa estrutura.
O Ministério dos Direitos Humanos mantém canais que incluem telefone, meios digitais e atendimento em Libras.
A existência desses recursos, porém, não elimina a necessidade de ampliar a acessibilidade nos serviços cotidianos.
O Dia Internacional das Línguas de Sinais termina nesta quarta-feira.
Para quem depende da Libras para se comunicar, a necessidade de ser compreendido continua amanhã, na próxima semana e durante todo o ano.
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