
Você sabia que claras de ovos eram usadas para engomar roupas em conventos de Portugal? Descubra como isso deu origem a doces famosos.
No coração da gastronomia portuguesa existe uma história que mistura fé, necessidade e criatividade. À primeira vista pode parecer curiosa, mas foi justamente o uso inusitado de claras de ovos pelas freiras de Leiria que deu início a uma das tradições doces mais ricas da Lusitânia e, posteriormente, do Brasil.
Não se trata apenas de culinária é uma narrativa que cruza religião, economia, vida conventual e a expansão colonial de Portugal.
Por que as claras de ovos viraram tradição nos conventos?
Uma prática cotidiana com impacto inesperado
Nos conventos de Portugal, especialmente no século XV e além, as freiras tinham funções domésticas que iam muito além de rezar. Entre as atividades rotineiras estava o uso de claras de ovos para engomar roupas litúrgicas. A albumina presente nas claras confere rigidez ao tecido, deixando as vestes das freiras e dos religiosos impecáveis e bem apresentadas.
Essa técnica não era apenas um detalhe estético. As vestimentas religiosas eram símbolos de devoção e dignidade e precisavam manter-se limpas, brancas e rígidas por dentro e por fora.
Além disso, em muitos conventos as claras também eram usadas para clarificar vinho, removendo impurezas e deixando a bebida mais pura e estável.
O problema do excesso de gemas
Com todo esse intenso uso de claras para fins não alimentares, os conventos acabavam com uma enorme sobra de gemas de ovos um ingrediente valioso que, por razões práticas e econômicas, não podia ser simplesmente descartado.
Então o que fazer com tantas gemas acumuladas?
Foi essa pergunta que levou as freiras à cozinha e à criação de doces delicados, ricos e surpreendentes uma solução criativa que logo se tornou tradição.
O nascimento dos doces conventuais
Os primeiros registros de doces feitos com gemas e açúcar, conhecidos hoje como doces conventuais portugueses datam do século XV, quando o açúcar começou a ser amplamente utilizado em Portugal após as explorações e comércio colonial.
Como surgiram essas receitas
- Excedente de gemas: O uso frequente de claras para fins práticos deixava as gemas sem destino.
- Açúcar disponível: A partir das colônias, especialmente com plantações de cana-de-açúcar na Ilha da Madeira e Brasil, o açúcar se tornou mais acessível.
- Criatividade nas cozinhas conventuais: As freiras começaram a combinar gemas com açúcar, criando texturas cremosas e sabores delicados que viraram verdadeiras especialidades regionais.
Esses doces eram feitos com ingredientes simples mas resultavam em sabores intensos e cores vibrantes muitas vezes com nuances douradas que só as gemas conseguem oferecer.
Brisa-do-Lis: o doce de Leiria que inspirou tradições
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa criatividade culinária nasceu na cidade de Leiria, onde as freiras do Convento de Santana (hoje extinto) desenvolveram uma iguaria conhecida como Brisa-do-Lis (vamos trazer a receita desse doce muito em breve).
O que era a Brisa-do-Lis?
A Brisa-do-Lis é um doce conventual feito com gemas de ovo, açúcar e amêndoas, ingredientes simples, mas ricos em sabor e textura.
Esse doce ficou tão associado à tradição de Leiria que, ao cruzar o oceano com os portugueses no período colonial, acabou por influenciar sobremesas em terras brasileiras.
Do convento português ao sabor brasileiro: a história do quindim
Quando as receitas portuguesas chegaram ao Brasil, elas passaram por uma adaptação forçada pelos ingredientes disponíveis no novo território.
A transformação inevitável
No Brasil colonial, as amêndoas eram raras e caras e não faziam parte da culinária local da mesma forma que em Portugal. Porém, havia abundância de coco ralado, especialmente nas regiões tropicais.
Foi assim que a receita evoluiu:
- O tradicional doce português, que usava amêndoas, ficou conhecido como algo novo.
- O coco substituiu as amêndoas e deu origem ao que hoje conhecemos como quindim, palavra derivada do quimbundo ou kimbundo (uma língua africana falada em Angola) significa “encanto” ou “dengo”, fazendo referência à delicadeza do doce.
O quindim rapidamente se popularizou no Brasil, principalmente no Nordeste, tornando-se uma sobremesa querida e símbolo da fusão entre tradições europeias e ingredientes tropicais.
Doçaria conventual: tradição, cultura e sabor
Os doces conventuais portugueses tornaram-se símbolo de tradição cultural, espalhando-se por toda a Península Ibérica e além.
Além disso eles também tiveram papel econômico:
- Venda para arrecadar fundos: Em períodos de dificuldade financeira, alguns conventos passaram a comercializar seus doces para arrecadar recursos para manter a comunidade.
- Transmissão de receitas: Após a extinção das ordens religiosas em 1834, muitas dessas receitas foram preservadas por famílias que aprenderam com as freiras e continuaram as tradições culinárias.
Quindim e a história além do doce
O que começou com uma necessidade prática de não desperdiçar gemas se transformou em uma das mais fascinantes histórias da gastronomia o que nos faz lembrar que:
- Que a culinária é parte da história: pratos muitas vezes carregam séculos de tradição, adaptação e criatividade humana.
- Que ingredientes simples podem criar tradições duradouras: do convento ao prato brasileiro, reinventando sabores.
- Que cultura e alimento caminham juntos: doces conventuais conectam religião, economia, viagens e miscigenação cultural.
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