Bilhões de dólares começaram a se mover com mais intensidade no setor de tecnologia após o avanço de ferramentas de inteligência artificial capazes de criar softwares praticamente sob comando. A possibilidade de desenvolver sistemas complexos sem escrever código manualmente deixou de ser hipótese distante e já provoca reações visíveis no mercado financeiro.
A Salesforce acumula queda de mais de 40% em um ano. A IBM despencou 13% em um único pregão. O gatilho foi o avanço da IA na programação, e o fenômeno ganhou até nome: vibe coding.
O impacto vai além das oscilações pontuais nas bolsas. Analistas passaram a revisar projeções de crescimento para empresas ligadas ao software tradicional, enquanto investidores direcionam atenção crescente para companhias posicionadas na infraestrutura da inteligência artificial.
A tecnologia ainda não derrubou o modelo de software como serviço. Mas já é grande o suficiente para sacudir as bolsas e mudar a forma como empresas pensam sobre tecnologia.
O que é vibe coding e por que ele assusta o mercado
O termo foi cunhado por Andrej Karpathy, pesquisador com passagem pela Tesla e pela OpenAI. A ideia é simples: o desenvolvedor descreve o que precisa em linguagem natural, e a IA escreve o código.
Não que o programador desapareça. Ele continua sendo responsável por validar o que a IA produziu, garantir a segurança da aplicação, revisar a arquitetura e fazer o deploy. Mas o volume de código escrito manualmente cai de forma expressiva.
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O impacto já é visível. Ferramentas como o Claude Code, da Anthropic, são capazes de modernizar sistemas legados escritos em COBOL, linguagem associada a grandes mainframes corporativos.
Foi o anúncio do Claude Code que derrubou as ações da IBM em 13% em um dia. Boa parte da receita da empresa vem justamente de contratos ligados a mainframes e consultoria em COBOL.
O SaaS está em risco real ou o mercado exagerou?
Software como Serviço (SaaS) é o modelo em que empresas pagam assinatura mensal para usar ferramentas na nuvem, como CRMs, plataformas de RH ou sistemas de gestão. É um mercado bilionário.
Mesmo com o avanço tecnológico, a substituição de plataformas consolidadas por sistemas próprios ainda envolve custos operacionais relevantes, como manutenção contínua, segurança digital e necessidade de equipes técnicas especializadas. Esse fator mantém muitas empresas cautelosas diante da promessa de autonomia total no desenvolvimento.
A lógica da ameaça é direta: se qualquer empresa pode criar seu próprio software conversando com uma IA, ela pararia de pagar assinatura para usar uma ferramenta pronta.
Na prática, a discussão é mais complexa. Ela passa por duas dimensões distintas:
- Tecnologia: a IA realmente já consegue criar softwares complexos com alto grau de confiabilidade?
- Modelo de negócios: uma empresa fora do setor de tecnologia vai mesmo criar e manter seu próprio CRM, ou prefere continuar pagando por um serviço pronto e suportado?
A resposta para a segunda pergunta ainda é, na maior parte dos casos, pagar pelo serviço pronto. Montar um time técnico para criar, testar, manter e evoluir um sistema sob medida tem custos que muitas empresas não querem assumir.
As próprias empresas de SaaS, vale observar, estão incorporando IA dentro dos seus produtos. O movimento não é estático, e os players mais estabelecidos têm tempo e capital para se adaptar.
Quem perde valor e quem surfou a onda da IA
A euforia com a IA generativa não beneficiou todo o setor de tecnologia de forma igual. Enquanto algumas empresas dispararam na bolsa, outras sofreram com a mudança de expectativas.
Empresas que sentiram o impacto negativo
- Salesforce: mais de 40% de desvalorização no último ano, em queda constante, reflexo direto da percepção de que o vibe coding pode reduzir a dependência de CRMs prontos.
- IBM: queda de 13% em um único pregão após o anúncio do Claude Code com capacidade de modernizar sistemas COBOL.
- Empresas de SaaS em geral: o setor enfrenta pressão de analistas e investidores que antecipam queda na demanda por software de prateleira.
Empresas que avançaram com a onda
Do outro lado da equação, Nvidia, Meta, Google e Microsoft acumularam valorizações expressivas. São as empresas que fornecem a infraestrutura, os modelos ou os sistemas operacionais sobre os quais a IA generativa roda.
A divisão revela uma dinâmica clara: quem constrói a IA avança. Quem vende software que a IA pode, no limite, substituir, sente pressão.
O programador vai desaparecer com o vibe coding?
O avanço do vibe coding já começa a alterar a lógica de formação e atuação no setor de tecnologia. A automação de etapas operacionais desloca o foco do profissional para decisões estratégicas, validação técnica e supervisão de sistemas cada vez mais complexos.
A resposta curta é não. A mais longa exige contexto.
O vibe coding reduz a barreira de entrada para criar software. Uma pessoa sem formação técnica aprofundada já consegue montar protótipos funcionais. Isso muda o mercado, mas não elimina a necessidade de profissionais técnicos.
Algumas funções continuam sendo essencialmente humanas nesse processo:
- Revisão e validação do código gerado pela IA.
- Decisões de arquitetura e escalabilidade da aplicação.
- Auditorias de segurança e compliance.
- Deploy, monitoramento e manutenção em produção.
O perfil do profissional de tecnologia muda. Ele passa a ser mais um zelador do que produz a IA do que um escritor linha a linha de código. Mas continua indispensável.
O que esperar nos próximos anos
A transição não vai ser imediata. Empresas têm contratos longos, equipes já treinadas em ferramentas específicas e processos internos construídos ao longo de anos. Mudar tudo por causa de uma promessa tecnológica, mesmo promissora, é uma decisão lenta.
Mas a pressão é real. Empresas de SaaS que não mostrarem como a IA está tornando seus produtos mais úteis, mais rápidos e mais baratos vão perder clientes gradualmente para concorrentes que o fazem.
O mercado financeiro pode ter exagerado na reação de curto prazo. Mas o sinal de longo prazo é consistente: o software de prateleira genérico está sob pressão crescente.
A transformação tende a ocorrer em ritmo gradual, mas o sinal já foi dado. A inteligência artificial começa a redefinir o equilíbrio competitivo no setor de software e pressiona empresas a rever produtos, preços e velocidade de inovação. Nos próximos anos, capacidade de adaptação tecnológica pode deixar de ser vantagem e passar a ser requisito básico de sobrevivência.
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