Dia Mundial de Combate ao Bullying: 27% dos adolescentes relatam agressões; veja os sinais de alerta

Pesquisa do IBGE revela aumento do bullying entre estudantes; ataques nas redes sociais atingem um em cada oito adolescentes e podem resultar em até quatro anos de prisão

Uma criança que sempre gostou de ir à escola começa a inventar desculpas para ficar em casa. Outra, antes comunicativa, passa a evitar os amigos e se cala quando recebe uma mensagem no celular. Para os pais, essas mudanças podem parecer passageiras. Mas, em alguns casos, são os primeiros sinais de uma violência que acontece longe dos olhos da família.

O bullying nem sempre deixa marcas visíveis. Pode começar com apelidos, comentários sobre a aparência ou humilhações diante dos colegas. Quando chega às redes sociais, a perseguição pode continuar mesmo depois que a vítima volta para casa.

Neste 20 de outubro, Dia Mundial de Combate ao Bullying, os números ajudam a entender a dimensão do problema. Mais de um em cada quatro estudantes brasileiros de 13 a 17 anos relatou agressões recorrentes, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgada pelo IBGE em 2026.

A proporção chegou a 27,2%, acima dos 23% registrados em 2019, um aumento de 4,2 pontos percentuais.

Bullying é mais frequente entre meninas

Entre as meninas, 30,1% relataram agressões recorrentes, contra 24,3% dos meninos. Comentários sobre aparência, corpo e cabelo estão entre os motivos apontados pelas vítimas.

Os números também mostram que o problema não se restringe a uma rede de ensino. Nas escolas públicas, 27,2% dos estudantes relataram bullying recorrente. Nas particulares, foram 27,5%.

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As diferenças são pequenas e reforçam que a prevenção precisa fazer parte da rotina de todas as escolas.

Cyberbullying amplia a exposição das vítimas

Uma fotografia publicada para ridicularizar alguém, um perfil falso criado para espalhar boatos ou ataques em grupos de mensagens podem transformar uma agressão em exposição pública.

Segundo o IBGE, 12,7% dos adolescentes relataram ter sofrido cyberbullying, aproximadamente um em cada oito estudantes.

Entre as meninas, o percentual chegou a 15,2%, enquanto entre os meninos foi de 10,3%.

Na internet, uma publicação ofensiva pode alcançar rapidamente outras pessoas. Mesmo depois de apagada, capturas de tela e compartilhamentos podem prolongar a humilhação e o medo de novas agressões.

Como os pais podem perceber que algo está errado?

Muitas crianças e adolescentes têm dificuldade para falar sobre o que estão enfrentando. Vergonha, medo de represálias e receio de perder o acesso ao celular podem contribuir para o silêncio.

Por isso, familiares e educadores devem observar mudanças como:

  • Recusa frequente em ir à escola ou participar de atividades;
  • Tristeza, irritabilidade, ansiedade ou isolamento;
  • Queda no rendimento escolar e alterações no sono;
  • Medo ou desconforto ao receber mensagens;
  • Afastamento repentino de amigos e atividades habituais.

Esses sinais não comprovam, isoladamente, que existe bullying. Podem ter outras causas, mas merecem atenção.

Em vez de pressionar por respostas, os pais devem procurar um momento tranquilo para conversar. Ouvir sem interromper e evitar julgamentos pode ajudar a criança a contar o que aconteceu.

Frases como “isso é coisa de criança” ou “você precisa aprender a se defender” podem fazer com que a vítima se sinta ainda mais sozinha.

Bullying e cyberbullying são crimes no Brasil

Desde janeiro de 2024, a Lei nº 14.811 incluiu o bullying e o cyberbullying no Código Penal.

A legislação considera bullying a intimidação intencional e repetitiva, individual ou coletiva, mediante violência física ou psicológica. Quando a conduta não constitui crime mais grave, a pena prevista é de multa.

No ambiente digital, a punição é mais severa. O cyberbullying pode resultar em reclusão de dois a quatro anos, além de multa, quando não configurar crime mais grave.

Uma ofensa isolada não caracteriza automaticamente bullying, embora possa configurar outra infração. Quando o responsável tem menos de 18 anos, aplicam-se as regras do Estatuto da Criança e do Adolescente.

O que fazer ao descobrir uma situação de bullying?

A prioridade é proteger a vítima e impedir que as agressões continuem.

Quando o problema envolve colegas, a família deve procurar a direção escolar, registrar o ocorrido e acompanhar as providências. Uma conversa entre os envolvidos, por si só, pode não ser suficiente.

Nos casos de cyberbullying, é importante preservar mensagens, capturas de tela, links e registros das publicações antes de denunciar o conteúdo às plataformas.

O Ministério Público de Santa Catarina, que reforçou o alerta nesta semana, também recomenda evitar confrontos virtuais e não compartilhar publicações usadas para humilhar outras pessoas.

Ameaças e possíveis crimes podem ser comunicados à Polícia Civil. Violações de direitos de crianças e adolescentes também podem ser denunciadas pelo Disque 100.

Em situações de perigo imediato, a polícia pode ser acionada pelo 190. Se houver sofrimento emocional intenso ou persistente, é importante buscar acompanhamento profissional.

Combater o bullying exige atenção o ano inteiro

Embora o 20 de outubro seja lembrado em campanhas de conscientização, a UNESCO reconhece oficialmente a primeira quinta-feira de novembro como Dia Internacional contra a Violência e o Bullying na Escola, incluindo o Cyberbullying. Em 2026, a data será 5 de novembro.

Para uma criança que teme voltar à escola ou abrir uma mensagem no celular, pouco importa onde a agressão aconteceu. O sofrimento é real, e nem sempre ela consegue pedir ajuda.

Perceber mudanças de comportamento, ouvir sem julgamentos e exigir providências da escola pode fazer a diferença antes que as agressões provoquem consequências ainda maiores.

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