Quando esse gás é captado e tratado, uma emissão produzida pela decomposição dos resíduos pode entrar em outra cadeia: a produção de energia. É daí que surgem o biogás e, após processos adicionais de purificação, o biometano.
Essa transformação conecta a gestão de resíduos à transição energética, à redução de emissões e ao aproveitamento de recursos que antes eram simplesmente descartados.
Como o lixo começa a produzir gás
Boa parte dos resíduos urbanos contém matéria orgânica.
Restos de alimentos e outros materiais biodegradáveis continuam sofrendo transformações depois que chegam ao aterro sanitário. Em determinadas etapas da decomposição, com pouco oxigênio disponível, microrganismos atuam sobre esse material e produzem gases.
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O resultado é uma mistura chamada biogás.
O metano é um de seus principais componentes. Também há dióxido de carbono e outros compostos em proporções que variam conforme os resíduos e as condições de decomposição.
A produção de gás, portanto, não é criada artificialmente para gerar energia. Ela já ocorre naturalmente dentro do aterro.
Em instalações preparadas para isso, sistemas de drenagem e captação permitem controlar e aproveitar parte desse gás em vez de deixá-lo escapar diretamente.
Biogás e biometano são coisas diferentes
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Seguir o RNews no WhatsAppOs nomes costumam aparecer juntos, mas não significam a mesma coisa.
O biogás é a mistura gasosa originada da decomposição de matéria orgânica.
O biometano surge quando esse biogás passa por processos de purificação que removem componentes indesejados e elevam a concentração de metano.
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, a ANP, estabelece especificações para o biometano produzido a partir de fontes como aterros sanitários e estações de tratamento de esgoto.
De maneira simplificada, o caminho pode ser entendido assim:
resíduo orgânico → decomposição → biogás → tratamento → biometano → uso energético
Essa etapa de tratamento é fundamental porque amplia as possibilidades de utilização do gás.
Como o gás do aterro pode virar energia
Depois de captado, o biogás pode seguir diferentes caminhos.
Dependendo da infraestrutura disponível, pode ser aproveitado para geração de eletricidade ou calor. Também pode receber tratamento adicional para produzir biometano.
O biometano tem aplicações semelhantes às do gás natural e pode ser utilizado como combustível em veículos, processos industriais e outras aplicações energéticas, desde que atendidas as exigências técnicas e regulatórias.
Isso permite que um gás originado da decomposição dos resíduos participe de uma cadeia energética que ultrapassa os limites do próprio aterro.
A instalação destinada à disposição final passa, assim, a poder integrar também uma cadeia de recuperação energética.
Por que captar metano também é uma questão climática
O metano liberado durante a decomposição da matéria orgânica é um gás de efeito estufa. Por isso, controlar sua geração e reduzir sua liberação direta para a atmosfera fazem parte da gestão ambiental dos aterros modernos.
Quando existe captação, o gás pode ser conduzido para tratamento, queima controlada ou aproveitamento energético, conforme a estrutura existente.
Isso não significa que todas as emissões desapareçam nem que qualquer forma de aproveitamento seja livre de impactos.
O ganho ambiental está em administrar um gás que já seria produzido pela decomposição dos resíduos, reduzir sua liberação descontrolada e, quando possível, aproveitar seu conteúdo energético.
É essa relação que colocou o biogás também no centro das discussões sobre clima.
Biogás pode ser considerado energia limpa?
A expressão exige cuidado.
Biogás e biometano são fontes renováveis produzidas a partir de matéria orgânica e resíduos. O biometano é reconhecido pelo governo federal como biocombustível e pode substituir combustíveis fósseis em determinadas aplicações.
Isso não significa impacto ambiental zero.
Existem emissões, equipamentos, consumo energético durante o tratamento, controle de qualidade e infraestrutura necessária para transportar ou utilizar o combustível.
Por isso, o benefício precisa ser analisado considerando principalmente o aproveitamento de um gás que já seria produzido e a possibilidade de substituir fontes fósseis.
Essa distinção evita transformar uma tecnologia ambiental em promessa simplificada.
São Paulo já produz biometano a partir de aterros
O aproveitamento do biogás já ocorre em escala real.
Dados divulgados pela Fundação Seade em 2026 mostram que São Paulo possui unidades autorizadas a produzir biometano a partir de diferentes tipos de resíduos, incluindo biogás originado de resíduos sólidos urbanos depositados em aterros sanitários.
Entre as operações citadas está uma unidade da Essencis em Caieiras, na Região Metropolitana de São Paulo.
O exemplo permite observar na prática a conexão entre destinação adequada de resíduos, controle de gases e produção de combustível.
A importância está no processo: uma infraestrutura criada para receber resíduos também pode participar de uma cadeia energética quando há condições técnicas para captar e tratar o gás produzido.
O biometano ganhou espaço na política energética brasileira
O tema passou a ocupar uma posição mais relevante em 2026 com a implementação da Lei do Combustível do Futuro.
O Programa Nacional de Descarbonização do Produtor e Importador de Gás Natural e de Incentivo ao Biometano prevê metas anuais relacionadas à redução de emissões no mercado de gás natural por meio da participação do biometano.
Segundo o Ministério de Minas e Energia, a meta começa em 1% em 2026 e pode chegar a 10% nos anos seguintes.
Isso coloca o combustível em uma posição diferente da ocupada há poucos anos. O biometano deixa de ser tratado apenas como solução associada à gestão de resíduos e passa a integrar também a estratégia brasileira de descarbonização energética.
A Empresa de Pesquisa Energética também avalia o aproveitamento de resíduos sólidos urbanos depositados em aterros para produção de biometano e considera aplicações como gás canalizado e combustível veicular.
Resíduos, energia, transporte e redução de emissões passam, portanto, a fazer parte da mesma discussão.
O lixo pode virar recurso, mas continua sendo lixo antes disso
Transformar biogás em energia não elimina a necessidade de reduzir a geração de resíduos, ampliar a reciclagem ou melhorar a coleta seletiva.
Também não significa que aterros devam receber materiais que poderiam permanecer em circulação por outras vias.
A valorização energética é uma das peças de um sistema maior.
A prioridade continua sendo evitar a geração, reduzir o descarte, reaproveitar materiais e ampliar a reciclagem sempre que houver viabilidade técnica.
Ainda assim, resíduos continuam sendo produzidos e parte deles precisa de destinação ambientalmente adequada.
Quando essa parcela gera gás durante sua decomposição, captá-lo e aproveitar seu potencial energético acrescenta uma nova função à infraestrutura de resíduos.
O que antes era tratado apenas como consequência do descarte passa também a ser visto como recurso.
É nessa transformação que gestão de resíduos, energia e clima começam a se encontrar.






