Biometano pode substituir o gás natural? Entenda onde ele já pode ser usado

Combustível renovável pode abastecer veículos, indústrias, comércios e circular por redes de gás, mas ampliar seu uso depende de produção, qualidade e infraestrutura.

Um combustível produzido a partir de resíduos pode chegar a uma indústria ou abastecer um veículo no lugar do gás natural extraído de reservas fósseis. Essa substituição já é tecnicamente possível com o biometano, mas produzir o gás renovável é apenas parte do caminho até o consumidor.

Quando atende aos padrões de qualidade exigidos, o biometano pode ser usado nas mesmas aplicações do gás natural. Isso inclui transportes, processos industriais, estabelecimentos comerciais e redes de distribuição. O desafio está em produzir em escala e fazer o combustível chegar aos locais onde existe demanda.

Biometano e gás natural podem fazer o mesmo trabalho?

Em muitas aplicações, sim.

O gás natural é um combustível fóssil formado ao longo de milhões de anos e extraído de reservatórios subterrâneos. O biometano tem outra origem: resulta da purificação do biogás gerado pela decomposição de matéria orgânica, inclusive em aterros sanitários.

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Após o tratamento, o biometano passa a ter elevada concentração de metano. Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, a ANP, suas características permitem que ele seja intercambiável com o gás natural em suas aplicações, desde que cumpra as especificações técnicas exigidas.

Essa compatibilidade explica parte de sua importância para a transição energética.

Em vez de exigir a troca de máquinas, motores e sistemas por tecnologias completamente novas, parte da infraestrutura que já utiliza gás pode receber um combustível de origem renovável.

Sistema De Captação De Biogás Em Aterro Sanitário Moderno Com Tubulações Industriais E Queima Controlada De Metano Sob Céu Aberto.
A poluição invisível dos aterros ocorre principalmente pela emissão de metano gerado na decomposição de resíduos orgânicos, controlado por sistemas de captação e monitoramento ambiental.

Onde o biometano pode ser usado

As regras brasileiras contemplam o uso do biometano em instalações industriais, comerciais e residenciais, além do uso veicular.

Na indústria, ele pode substituir gás natural em processos que necessitam de energia térmica. No transporte, pode abastecer veículos preparados para combustíveis gasosos, especialmente frotas pesadas e operações de longa distância.

Também pode entrar em sistemas de gás canalizado.

A Resolução ANP nº 1.006, publicada em agosto de 2026, consolidou as regras nacionais de especificação e controle da qualidade do biometano. A norma estabelece parâmetros de segurança e qualidade para o combustível comercializado no país.

A origem renovável, portanto, não dispensa controle técnico. Para circular no mercado como substituto do gás natural, o biometano precisa atender aos requisitos definidos para sua utilização.

Ele pode circular pela mesma rede do gás natural?

Quando atende às especificações necessárias, o biometano pode ser injetado em redes de distribuição de gás. A infraestrutura já existente pode, em determinadas condições, transportar também o combustível renovável.

Isso não significa que toda unidade produtora consiga acessar a rede imediatamente.

A distância entre a planta e a infraestrutura disponível passa a ser decisiva.

Se pode substituir o gás natural, por que o biometano ainda não está em todo lugar?

Imagine uma planta que produz biometano a dezenas de quilômetros da rede de distribuição mais próxima. O combustível está pronto, mas ainda precisa chegar ao consumidor.

Uma alternativa é comprimi-lo e transportá-lo por caminhões. A ANP reconhece essa modalidade, frequentemente chamada de gasoduto virtual. O combustível também pode ser transportado na forma liquefeita em aplicações específicas.

Essas soluções permitem atender consumidores sem conexão direta por tubulação, mas acrescentam etapas de compressão, transporte e logística.

Outra possibilidade é construir uma ligação física com a rede de gás.

Infraestrutura, regulação e localização das plantas determinam quanto do potencial do biometano consegue chegar ao mercado.

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O Grupo Solví em Caieiras

Caieiras mostra como a infraestrutura muda o caminho do biometano

Um exemplo concreto está em Caieiras, na Região Metropolitana de São Paulo.

A usina de biometano instalada no aterro do município começou a operar em 2024 por meio de uma parceria entre MDC Energia e Solví Ambiental. Em visita técnica realizada em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico informou capacidade instalada próxima de 70 mil metros cúbicos de biometano por dia.

Dados associados ao processo de conexão apontaram produção de aproximadamente 67 mil m³ por dia, transportados em carretas como gás comprimido.

Em maio de 2026, a Arsesp aprovou a interconexão da planta da Solví Essencis à rede de distribuição da Comgás. O projeto prevê cerca de 5,3 quilômetros de nova rede e uma estrutura de transferência para integrar a planta produtora ao sistema de gás canalizado.

O caso mostra a diferença entre produzir biometano e conseguir inseri-lo continuamente na infraestrutura energética de uma região.

A conexão direta tende a reduzir a dependência do transporte rodoviário do gás comprimido e cria condições para ampliar o volume destinado à rede.

Substituir gás fóssil também pode reduzir emissões?

O biometano é renovável por sua origem e pode substituir parte do consumo de gás natural fóssil. Quando produzido a partir de resíduos, também aproveita um gás que precisa ser adequadamente gerenciado.

Isso não significa que sua utilização seja livre de emissões.

A combustão continua liberando gases, e perdas de metano ao longo da produção e distribuição precisam ser controladas. Como o metano possui forte efeito sobre o aquecimento global, evitar vazamentos é parte essencial do benefício climático esperado.

A vantagem ambiental deve considerar todo o ciclo do combustível, desde a captura e purificação até o transporte e o uso final.

O Brasil está criando espaço para mais biometano

A Lei do Combustível do Futuro criou o Programa Nacional de Descarbonização do Produtor e Importador de Gás Natural e de Incentivo ao Biometano.

Em 2026, a ANP regulamentou pontos do programa, incluindo os procedimentos relacionados ao Certificado de Garantia de Origem de Biometano, o CGOB, destinado à rastreabilidade da produção e de seus atributos ambientais.

A discussão deixou de ser apenas tecnológica.

Para o biometano ganhar participação relevante, será necessário combinar produção, plantas de tratamento, padrões de qualidade, consumidores, logística e redes capazes de receber o combustível.

Então o biometano vai acabar com o gás natural?

Não no curto prazo.

O biometano pode substituir o gás natural em diversas aplicações, mas a produção ainda não é suficiente para uma troca integral.

O caminho mais provável é uma participação crescente do combustível renovável em setores e regiões onde produção, infraestrutura e demanda consigam se encontrar.

A pergunta já não é apenas se resíduos podem gerar um combustível capaz de substituir o gás natural. Isso já acontece.

O desafio agora é ampliar a produção e criar caminhos para que o biometano chegue às indústrias, veículos, comércios e redes que ainda dependem de combustíveis fósseis.

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