Chamadas inconvenientes disparam no Brasil e viram rotina de estresse no celular

Ligações automáticas, golpes e telemarketing abusivo se espalham e afetam milhões de brasileiros

O celular toca, cai, toca de novo e repete o ciclo ao longo do dia. As chamadas inconvenientes se tornaram rotina para milhões de brasileiros e já são tratadas como prática abusiva por órgãos reguladores.

Não é impressão. O volume de ligações automáticas, silenciosas ou que caem em segundos, cresceu de forma consistente nos últimos anos e virou alvo direto de órgãos reguladores. O problema deixou de ser apenas incômodo. Passou a ser invasão de privacidade, risco de golpe e, em alguns casos, prejuízo financeiro.

As chamadas inconvenientes hoje afetam aposentados, trabalhadores, profissionais liberais e famílias inteiras. Entender como elas funcionam, por que acontecem e o que realmente funciona para bloquear virou necessidade básica.

Por que as chamadas inconvenientes se tornaram tão frequentes

Grande parte dessas ligações não é feita por pessoas. São sistemas automatizados conhecidos como discadores automáticos ou robocalls. Eles ligam em massa, derrubam a chamada rapidamente e repetem o processo ao longo do dia.

Esse padrão tem objetivos claros:

  • Testar se o número está ativo.
  • Mapear horários em que a pessoa atende.
  • Atualizar bases de dados para telemarketing, cobrança ou golpes.
  • Forçar o consumidor a retornar a ligação.

A Anatel já reconheceu publicamente esse comportamento e passou a classificar esse tipo de prática como abusiva quando ocorre de forma repetitiva e automatizada. Desde 2022, medidas técnicas e bloqueios passaram a ser aplicados, mas o volume ainda é alto.

Quem mais sofre com as ligações automáticas

Embora qualquer pessoa possa ser alvo, alguns perfis são mais atingidos.

Aposentados e pensionistas estão entre os principais. O motivo é simples. Dados públicos e vazamentos de bases antigas facilitam a associação do número a benefícios previdenciários.

Outro grupo afetado são profissionais que usam o celular como ferramenta de trabalho. Reuniões interrompidas, atendimentos prejudicados e perda de foco se tornaram rotina.

Também há impacto direto em famílias que recebem chamadas em horários sensíveis, como madrugada, almoço ou noite.

O que muda quando a ligação envolve aposentados

Quando a chamada menciona benefícios, empréstimos ou revisão de valores, o risco sobe drasticamente. O próprio INSS é categórico: não liga, não envia mensagens e não oferece crédito consignado por telefone.

Golpistas usam linguagem semelhante à institucional para induzir a vítima a confirmar dados ou autorizar operações. Um simples “sim” pode ser gravado e usado fora de contexto.

Sinais de alerta:

  • Pedido de CPF, número do benefício ou banco.
  • Pressão para decisão imediata.
  • Promessa de liberação rápida de dinheiro.
  • Linguagem confusa ou ligação que cai após resposta.

Medidas imediatas para reduzir o incômodo no mesmo dia

Algumas ações simples reduzem o impacto quase na hora.

No iPhone, ativar o silenciamento de chamadas desconhecidas impede que números fora da agenda toquem. No Android, a maioria dos aparelhos já oferece bloqueio automático de spam.

Outra medida eficaz é usar o modo foco ou não perturbe, liberando apenas contatos essenciais como família, trabalho e serviços médicos.

Chamadas que caem em poucos segundos devem ser bloqueadas manualmente. Esse padrão é típico de discadores automáticos.

O bloqueio formal que realmente funciona

Existe um bloqueio gratuito criado para reduzir telemarketing no Brasil. O cadastro no “Não Me Perturbe” impede chamadas de operadoras de telecomunicações e instituições financeiras participantes.

Ele não elimina 100% das ligações, mas costuma reduzir de forma significativa ofertas de crédito, planos e serviços recorrentes.

É importante entender que ligações de cobrança legítima ou antifraude podem não ser bloqueadas. Mesmo assim, o impacto prático costuma ser relevante.

Como identificar quem está ligando e criar prova

Sem identificar a empresa, a denúncia perde força. Por isso, criar um registro mínimo ajuda muito.

O ideal é anotar:

  • Data e horário das chamadas.
  • Número exibido.
  • Duração, especialmente se cair rápido.
  • Nome da empresa, quando informado.
  • Prints do histórico de ligações.

Em poucos dias, esse material já serve como prova administrativa.

Onde denunciar para ter resultado real

A ordem faz diferença.

Primeiro, a denúncia nacional de telemarketing abusivo do governo federal permite registrar data, número e empresa. Isso alimenta ações coordenadas de fiscalização.

Depois, o Procon do estado ou município costuma ser o caminho mais efetivo para penalização direta, inclusive com multa.

Quando envolve bancos ou financeiras, além do Procon, o Banco Central do Brasil recebe reclamações que impactam diretamente a fiscalização das instituições.

Para chamadas de operadoras, a Anatel mantém canal específico para consumidores.

A base legal para exigir que parem

O consumidor não está desprotegido. A insistência pode caracterizar prática abusiva segundo o Código de Defesa do Consumidor.

Além disso, a Lei Geral de Proteção de Dados garante o direito de saber:

  • De onde veio o número.
  • Para qual finalidade está sendo usado.
  • Exigir a interrupção do uso para marketing.

Uma solicitação clara costuma funcionar quando enviada diretamente à empresa identificada.

Checklist prático para retomar a paz

  • Ativar bloqueio de chamadas desconhecidas.
  • Usar modo foco com exceções.
  • Cadastrar o número no “Não Me Perturbe”.
  • Registrar chamadas por alguns dias.
  • Denunciar nos canais corretos.
  • Nunca confirmar dados em ligações suspeitas.
  • Tratar ofertas para aposentados como alto risco.

Perguntas frequentes sobre chamadas inconvenientes

Essas ligações são sempre golpe?
Nem sempre. Algumas são telemarketing ou cobrança, mas o padrão automatizado facilita golpes.

Bloquear números resolve?
Ajuda, mas não elimina sozinho. O bloqueio formal e as denúncias são essenciais.

Posso processar a empresa?
Dependendo do volume e da insistência, há base para ação por prática abusiva.

O INSS liga para oferecer empréstimo?
Não. Qualquer ligação com essa promessa deve ser tratada como tentativa de fraude.

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Valentina de Lucca

Valentina de Lucca

Sou uma jornalista guiada pela sensibilidade, pela curiosidade e pelo desejo profundo de compreender o mundo em todas as suas camadas. Busco construir uma trajetória que marcada pela precisão da informação, pelo olhar humano e pela capacidade de transformar histórias reais em narrativas que inspiram, acolhem e despertam reflexão.

Apaixonada por comportamento, ciência, natureza e pelas relações que conectam pessoas, animais e ambientes, encontro sentido tanto nos avanços da tecnologia quanto na simplicidade da vida cotidiana.

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