A notícia parece simples: o Banco Central reduziu a Selic e, por isso, os juros cobrados dos consumidores também deveriam cair.
Na prática, quem procurar um empréstimo pessoal, parcelar uma compra ou financiar um imóvel ainda pode encontrar taxas elevadas.
O Comitê de Política Monetária, o Copom, reduziu a Selic de 14,25% para 14% ao ano na quarta-feira, 5 de agosto. Foi o quarto corte consecutivo de 0,25 ponto percentual.
A decisão abre espaço para uma redução gradual do custo do crédito, mas não provoca uma queda imediata em todas as linhas oferecidas pelos bancos. A Selic recuou, porém continua alta e ainda funciona como um freio ao consumo e aos investimentos.
Por que o empréstimo não cai junto com a Selic?
A Selic serve como referência para o custo do dinheiro na economia. Quando ela diminui, bancos e outras instituições financeiras podem captar recursos por taxas menores.
O preço cobrado do cliente, porém, inclui outros fatores: risco de atraso, prazo da operação, garantias, impostos, custos administrativos e margem da instituição.
Entenda os impactos na Economia
Análises, mudanças de regras, benefícios, tarifas e decisões que afetam o bolso do brasileiro.
Por isso, uma redução de 0,25 ponto percentual na Selic anual não significa uma queda igual nos juros de um empréstimo.
Um banco que cobra 5% ao mês no crédito pessoal, por exemplo, não reduzirá necessariamente essa taxa para 4,75% apenas porque a Selic caiu de 14,25% para 14% ao ano. São taxas calculadas em períodos diferentes e influenciadas por custos e riscos distintos.
Linhas mais arriscadas, como rotativo do cartão, cheque especial e crédito pessoal sem garantia, costumam reagir menos. Empréstimos garantidos por imóvel, veículo ou outro bem podem apresentar condições melhores mais rapidamente.
A inadimplência também pesa. Quando cresce o número de clientes que atrasam ou deixam de pagar, as instituições tendem a elevar as taxas para compensar o risco.
A parcela de quem já tem financiamento vai diminuir?
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Seguir o RNews no WhatsAppNa maioria dos contratos, não.
Quem contratou um financiamento com juros prefixados continuará pagando a taxa definida no momento da assinatura. A redução da Selic não altera automaticamente o valor das prestações.
Nos contratos pós-fixados, a mudança depende do índice utilizado e das regras previstas. Nem todo financiamento com taxa variável acompanha diretamente a Selic.
Uma alternativa para quem já possui uma dívida é pesquisar a portabilidade de crédito. O mecanismo permite transferir o saldo devedor para outra instituição que ofereça condições mais vantajosas.
A comparação deve considerar o custo efetivo total, o CET, e não somente a taxa apresentada no anúncio. Seguros, tarifas e outras cobranças podem tornar uma proposta aparentemente barata mais cara até o fim do contrato.
Também é preciso observar o prazo. Uma parcela menor nem sempre representa economia. Ao alongar demais o financiamento, o consumidor pode reduzir o valor mensal e terminar pagando mais pela dívida.
O que muda para quem investe?
A mesma Selic que mantém o crédito caro continua favorecendo parte da renda fixa.
Aplicações pós-fixadas, como Tesouro Selic e CDBs vinculados ao CDI, ainda oferecem rendimentos elevados. O ganho líquido depende do prazo, do Imposto de Renda, das taxas cobradas e do percentual do CDI pago pela instituição.
Títulos prefixados e aplicações ligadas à inflação podem se valorizar quando o mercado passa a esperar novos cortes de juros. Esses papéis, porém, oscilam antes do vencimento. Quem precisar vender antecipadamente pode receber menos do que esperava.
A queda da Selic também pode favorecer empresas negociadas na Bolsa, especialmente as mais dependentes do consumo e do crédito. Esse efeito costuma ganhar força quando os cortes se repetem e aumenta a confiança de que a inflação continuará desacelerando.
Por que o Banco Central ainda age com cautela?
A inflação perdeu força, mas continua acima da meta central de 3%.
O IPCA, índice oficial usado no sistema de metas, acumulou alta de 4,64% nos 12 meses encerrados em junho. O IPCA-15, considerado uma prévia da inflação, avançou 0,06% em julho e acumulou 4,52% em 12 meses.
A desaceleração ajuda o Banco Central, mas um único resultado mais baixo não confirma que os preços continuarão perdendo força.
O Copom também acompanha o mercado de trabalho, os gastos públicos, o câmbio e os preços de alimentos e energia. Se esses fatores pressionarem a inflação, o espaço para novos cortes diminui.
Conflitos internacionais e mudanças nos juros de grandes economias também podem afetar o dólar e encarecer produtos importados, combustíveis e matérias-primas.
Por isso, o Banco Central evitou prometer uma nova redução. A decisão seguinte dependerá dos dados divulgados até a próxima reunião.
Haverá novo corte da Selic em setembro?
A próxima reunião do Copom está marcada para 15 e 16 de setembro de 2026.
Parte dos economistas considera possível outro corte de 0,25 ponto percentual, que levaria a Selic a 13,75% ao ano. Outra parcela do mercado acredita que o Banco Central poderá interromper o ciclo se a inflação voltar a acelerar ou se aumentarem os riscos relacionados às contas públicas.
Para o consumidor, a conclusão é direta: não vale esperar uma queda ampla e imediata nos empréstimos.
Quem precisa contratar crédito deve comparar propostas, conferir o CET, negociar com mais de uma instituição e evitar modalidades emergenciais. Quem já possui uma dívida pode verificar se a portabilidade reduz o custo total, sem apenas aumentar o prazo.
A Selic começou a cair, mas o dinheiro continua caro. Um alívio mais perceptível dependerá de novos cortes, da redução consistente da inflação e de menor risco de inadimplência.





