A partir de dezembro de 2026, a nova legislação garantirá duas folgas semanais remuneradas, sem redução salarial. Para as empresas, a mudança exigirá adaptações que poderão influenciar os preços de produtos e serviços.
Supermercados, restaurantes, escolas e estabelecimentos que funcionam aos fins de semana estão entre os negócios que precisarão reorganizar suas equipes. Estudos apontam custos adicionais, mas apresentam conclusões diferentes sobre os efeitos na economia. A principal dúvida para o consumidor é quanto dessas despesas poderá chegar ao orçamento familiar.
O que muda com o fim da escala 6×1?
Após a aprovação do fim da escala 6×1 pelo Senado, em 14 de outubro, o Congresso promulgou a Emenda Constitucional 141, no dia 16. A mudança estabelece a redução gradual da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais.
A transição ocorrerá em duas etapas:
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- Dezembro de 2026: jornada máxima de 42 horas semanais e dois dias de descanso remunerado.
- Dezembro de 2027: jornada máxima de 40 horas, mantendo as duas folgas.
Dos dois dias de descanso semanal remunerado, um deverá ocorrer preferencialmente aos domingos. Empresas que funcionam diariamente poderão organizar escalas diferentes, conforme a legislação e as negociações coletivas. Excepcionalmente, acordos e convenções poderão distribuir os descansos, garantindo a média de duas folgas semanais dentro do mês e pelo menos um dia de repouso em cada período máximo de uma semana de trabalho.
Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, 33,2% dos trabalhadores celetistas estavam na escala 6×1 em dezembro de 2025.
Quem trabalhar menos receberá menos?
Não. A nova legislação proíbe a redução salarial decorrente da diminuição da jornada, inclusive dos pisos das categorias.
Imagine um empregado que recebe R$ 2.200 mensais por 44 horas semanais. Quando sua jornada chegar a 40 horas, continuará recebendo os mesmos R$ 2.200.
O salário por hora aumentará 10%, considerando a redução de quatro horas semanais.
A proteção do salário contratual não impede mudanças nos ganhos com horas extras. Se a empresa reduzir essas horas durante a reorganização das jornadas, a remuneração variável poderá diminuir, mesmo com o salário-base preservado.
A distribuição das folgas e o pagamento de horas extras também dependerão das regras aplicáveis a cada categoria. Na escala 5×2, os direitos relacionados aos domingos, salários e períodos de descanso precisam ser observados pelas empresas durante a reorganização das jornadas.
Por que as empresas poderão gastar mais?
O principal desafio será manter o funcionamento com menos horas disponíveis por funcionário.
Um supermercado que abre diariamente precisará reorganizar as folgas para continuar atendendo durante toda a semana. Dependendo da estrutura, poderá contratar empregados, alterar turnos ou adotar compensações permitidas pela legislação. O custo para as empresas acabarem com a escala 6x1 dependerá da quantidade de funcionários, das horas que precisarão ser repostas e das alternativas de organização do trabalho.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a redução para 40 horas poderá elevar os custos anuais com trabalhadores formais entre R$ 178,2 bilhões e R$ 267,2 bilhões.
Esses números representam projeções nacionais, considerando diferentes estratégias para manter as horas de trabalho. Não são despesas já realizadas.
Quanto desse aumento pode chegar aos preços?
O aumento do custo salarial não significa reajuste equivalente no preço final.
Considere um estabelecimento com despesas mensais de R$ 100 mil, sendo R$ 30 mil destinados à folha de pagamento.
Se essa despesa trabalhista aumentar 10%, passará para R$ 33 mil.
Mantidos os demais gastos, o custo total chegará a R$ 103 mil, representando aumento de 3%, e não de 10%.
O exemplo é hipotético, mas demonstra por que não se pode aplicar diretamente o percentual de aumento salarial aos preços.
A CNI projeta aumento médio de 6,2% nos preços ao consumidor em uma de suas simulações. O estudo estima elevação de 5,7% nas compras em supermercados e de 6,2% na alimentação fora de casa.
Os percentuais representam projeções econômicas, não reajustes anunciados pelos estabelecimentos. Os resultados dependerão da capacidade de adaptação das empresas, da produtividade e das condições de mercado.
Escolas, restaurantes e supermercados podem ficar mais caros?
Alguns estabelecimentos poderão reajustar preços, especialmente aqueles que dependem de equipes numerosas para funcionar diariamente.
A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) estima que a redução definitiva para 40 horas poderá exigir a reposição de aproximadamente 5,9 milhões de horas semanais no setor.
No ensino privado, estudo encomendado por uma entidade representativa das escolas projeta aumento de 9% a 17% na folha de pagamento.
Essas previsões não significam reajustes obrigatórios.
Uma escola poderá reorganizar atividades, enquanto um restaurante poderá modificar horários. A concorrência também limitará a possibilidade de repassar integralmente os custos aos consumidores.
Trabalhar menos significa produzir menos?
Não necessariamente.
Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado em fevereiro de 2026, estima aumento médio de 7,84% no custo da hora trabalhada com a redução da jornada semanal para 40 horas. O cálculo considera as diferentes jornadas praticadas pelos empregados com carteira assinada, e não apenas aqueles que atualmente trabalham 44 horas semanais.
Esse percentual não corresponde ao aumento das despesas totais das empresas.
Em setores como comércio e indústria, o estudo aponta impactos relativamente pequenos sobre os custos operacionais. Já atividades intensivas em mão de obra podem enfrentar dificuldades maiores.
A produtividade também influencia os resultados. Funcionários descansados podem apresentar melhor desempenho, embora isso dependa das condições de trabalho e da organização das atividades.
O trabalhador terá melhor qualidade de vida?
O benefício imediato será dispor de mais tempo para descanso, convivência familiar, estudos e cuidados pessoais.
Pesquisa Datafolha divulgada em outubro mostra que 75% dos brasileiros consideram que o fim da escala 6×1 será positivo para a qualidade de vida dos trabalhadores.
Quando questionados sobre os benefícios para a própria vida, 59% avaliam a mudança positivamente.
Os números demonstram que o reconhecimento dos benefícios sociais pode coexistir com preocupações econômicas.
O que trabalhadores e consumidores devem acompanhar?
Os empregados deverão conferir as novas escalas, os horários e a preservação dos salários. Alterações irregulares poderão ser questionadas junto aos sindicatos ou órgãos trabalhistas.
Para os consumidores, o principal cuidado será verificar as justificativas para eventuais reajustes.
Aluguel, energia, fornecedores e demanda também influenciam os preços. Portanto, nem todo aumento poderá ser atribuído à redução da jornada.
Em São Paulo, onde a CNI projeta até R$ 95,8 bilhões em custos empresariais adicionais, o impacto dependerá da capacidade de adaptação de cada atividade econômica.
A mudança já está prevista na Constituição, mas seus efeitos sobre preços e empregos precisarão ser acompanhados após a implementação. Antes de aceitar um reajuste atribuído à nova escala, vale lembrar: o aumento do custo da mão de obra não corresponde, necessariamente, ao mesmo aumento no preço final.
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