A Gerdau registrou lucro líquido ajustado de R$ 1,52 bilhão no terceiro trimestre de 2026, alta de 39,7% em relação ao mesmo período do ano passado. Dias depois da divulgação do balanço, anunciou o encerramento da produção de aço em Divinópolis, Minas Gerais. Como uma empresa com lucro bilionário decide interromper uma operação industrial?
A resposta começa pela diferença entre os mercados onde a companhia atua. O resultado consolidado foi impulsionado pela América do Norte, enquanto as operações brasileiras enfrentam retração nas vendas e margens menores. O lucro informado corresponde ao período de julho a setembro e não mede o resultado específico da fábrica mineira.
Lucro bilionário não significa lucro em todas as fábricas
A receita líquida mundial da Gerdau chegou a R$ 18,69 bilhões no terceiro trimestre. O Ebitda ajustado, indicador que mede o desempenho operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização, alcançou R$ 3,77 bilhões. Esse valor não deve ser confundido com lucro líquido.
A América do Norte respondeu por 76,4% do Ebitda ajustado, com aproximadamente R$ 2,9 bilhões. A margem Ebitda ajustada naquela região alcançou 27,7%, enquanto a margem brasileira ficou em 10,7%.
Explore mais em Negócios
Empreendedorismo, empresas, inovação e iniciativas que movimentam a economia regional.
Brasil e América do Norte tiveram participações semelhantes nas vendas físicas de aço do grupo, de 45,4% e 44,2%, respectivamente. Mesmo com volumes próximos, a rentabilidade apresentou diferenças expressivas.
O balanço não detalha o resultado de Divinópolis. Portanto, não permite dizer que a unidade tinha prejuízo nem que seu encerramento foi provocado exclusivamente por um fator econômico.
Vendas de aço recuam nas operações brasileiras
Entre julho e setembro, o volume de aço vendido pela operação brasileira caiu 14,6% em comparação com o terceiro trimestre de 2025. As exportações recuaram 47,9%, e as vendas ao mercado interno diminuíram 5,8%.
O Ebitda ajustado no Brasil somou R$ 741 milhões. Embora tenha crescido 5,2% ante o trimestre anterior, o resultado acumulado de janeiro a setembro ficou 26% abaixo do mesmo intervalo de 2025.
Isso ajuda a entender por que lucro global e decisões locais podem caminhar em direções distintas. Uma empresa pode crescer em mercados nos quais obtém maiores margens e reduzir atividades em instalações consideradas menos competitivas. A Gerdau afirma que pretende concentrar a produção em unidades mais eficientes.
O aço importado explica toda a dificuldade?
Para justificar o encerramento da produção em Divinópolis, a Gerdau apontou principalmente a dificuldade de obter minério de ferro a preços competitivos. A companhia também citou o avanço das importações de aço e as condições desfavoráveis para exportar.
Segundo o Instituto Aço Brasil, o país importou 600 mil toneladas de aço em setembro, aumento de 34,6% sobre o mesmo mês de 2025. Mas o acumulado de janeiro a setembro seguiu outra direção: cerca de 4,3 milhões de toneladas, 15,4% menos que no período equivalente do ano anterior.
O crescimento registrado em setembro não significa que as importações tenham aumentado no acumulado do ano. Além das importações, preços, demanda, energia e logística interferem nos custos industriais. Sem informações financeiras por fábrica, não é possível atribuir a interrupção em Divinópolis somente à concorrência externa.
Divinópolis não é um caso isolado
Há antecedentes. Em 2024, a Gerdau anunciou a paralisação da usina de Barão de Cocais, também em Minas Gerais, em um processo chamado de hibernação. Em agosto de 2026, a unidade Açonorte, no Recife, interrompeu atividades de aciaria e laminação; o sindicato local relatou 160 desligamentos.
Em Divinópolis, o encerramento da produção foi acompanhado de aproximadamente 280 demissões. O anúncio e os primeiros impactos sobre os trabalhadores foram detalhados no artigo sobre o fechamento da produção de aço na unidade mineira.
Na quarta-feira, 4, o superintendente regional do Trabalho, Carlos Calazans, informou que laminação e logística serão mantidas, preservando aproximadamente 180 empregos.
São decisões tomadas em momentos e unidades diferentes. Os episódios indicam uma revisão de operações, mas não comprovam a existência de um plano de encerramento generalizado de fábricas no país.
Gerdau também investe no Brasil
Enquanto reduz determinadas operações, a companhia mantém projetos de modernização e expansão. No terceiro trimestre, investiu R$ 955 milhões, dos quais 79% foram destinados às operações brasileiras. Do total investido pelo grupo, 55% foram direcionados a projetos de expansão e atualização tecnológica.
Em Pindamonhangaba, no interior paulista, entrou em operação uma estrutura de processamento de sucata. Em Minas Gerais, o projeto de mineração de Miguel Burnier estava na fase final de testes, com início das operações previsto para o quarto trimestre.
Esses investimentos não representam transferência anunciada de empregados de Divinópolis. Eles mostram que reduzir atividades em uma fábrica e ampliar outras frentes não são decisões incompatíveis dentro de um grupo industrial.
O que observar nos próximos meses
O encerramento de uma produção não provoca automaticamente falta de aço ou aumento de preços. Para avaliar possíveis reflexos, é preciso acompanhar a oferta de outras usinas, o volume importado e a demanda de setores como construção civil e indústria.
A Gerdau prevê apresentar mais detalhes de sua estratégia no Brasil em 4 de dezembro. Até lá, os números mais úteis são as vendas físicas no país, as margens das operações brasileiras e o destino dos investimentos. Eles ajudam a distinguir dificuldades pontuais de mudanças duradouras na indústria.








