Durante alguns dias de agosto, uma das paisagens mais áridas do planeta praticamente desapareceu sob o branco.
Duas tempestades de inverno atingiram o norte do Chile e espalharam neve por uma extensão incomum do Deserto do Atacama. Imagens feitas do espaço mostram áreas antes dominadas por tons marrons completamente transformadas.
Mas o que aconteceu em agosto pode ser apenas a primeira parte da história.
Enquanto a neve começa a desaparecer, outra mudança já pode ser observada mais ao sul: as primeiras flores da temporada começaram a surgir, e autoridades chilenas esperam que setembro marque uma expansão importante do chamado Deserto Florido.
Como tanta neve conseguiu chegar ao Atacama?
A NASA comparou imagens obtidas pelos satélites Landsat 8 e Landsat 9 nos dias 6 e 14 de agosto. Em pouco mais de uma semana, partes do planalto de Chajnantor passaram de uma superfície essencialmente seca para uma paisagem coberta de neve.
Uma segunda tempestade ampliou ainda mais a área atingida.
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Em uma imagem registrada pelo satélite Terra em 19 de agosto, a cobertura branca aparece descendo dos Andes, atravessando partes do núcleo hiperárido do Atacama e chegando perto da costa do Pacífico, ao sul de Antofagasta.
O alcance chamou atenção porque neve no Atacama não é algo totalmente inédito. Houve episódios recentes em 2025 e também em 2011.
O extraordinário em 2026 foi principalmente a extensão atingida.
Em um lugar quase sem chuva, 40 milímetros fizeram diferença
Nem toda a precipitação caiu em forma de neve.
Em Taltal, na costa norte chilena, foram registrados quase 40 milímetros de chuva em apenas três dias. Segundo o cientista atmosférico René Garreaud, da Universidade do Chile, o volume equivale a aproximadamente dez vezes a média anual do local.
As tempestades estiveram associadas a sistemas de baixa pressão que conseguiram avançar sobre o norte do Chile.
A combinação entre essa perturbação atmosférica e a umidade disponível produziu precipitação sobre uma faixa excepcionalmente ampla.
E é justamente a água que ajuda a explicar a transformação que começa agora.

Depois do branco, o deserto começa a mudar de cor
O Atacama pode parecer praticamente sem vida durante longos períodos, mas parte de sua vegetação está apenas esperando pelas condições certas.
Sementes e outras estruturas vegetais conseguem permanecer dormentes no solo por longos períodos. Quando encontram água suficiente, temperatura e umidade favoráveis, parte delas volta à atividade.
É esse mecanismo que produz o fenômeno conhecido como Deserto Florido.
As primeiras florações de 2026 já aparecem em diferentes pontos da Região de Atacama. A expectativa das autoridades chilenas é que o fenômeno se amplie ao longo de setembro e ganhe maior diversidade e abundância entre o fim do mês e meados de outubro.
As projeções técnicas apontam potencial de manifestação em uma área de até 15 mil quilômetros quadrados, embora isso não signifique que todo esse território ficará coberto de flores ao mesmo tempo.
Em uma temporada favorável, mais de 200 espécies vegetais podem aparecer em diferentes áreas, acompanhadas pela atividade de insetos, polinizadores e outros animais.
Isso significa que uma paisagem que há poucas semanas chamou atenção pelo branco pode ganhar uma combinação completamente diferente de cores durante a primavera chilena.
A neve é responsável pelas flores?
Não exatamente.
É tentador resumir a transformação dizendo que “a neve fez o deserto florescer”, mas o processo depende de uma combinação de fatores.
O Deserto Florido precisa de água disponível no solo, além de condições adequadas de temperatura, umidade e luz. Parte das chuvas que favorecem a germinação também ocorreu antes das grandes nevascas registradas pela NASA em agosto.
Neve e flores fazem parte do mesmo período excepcionalmente úmido no norte chileno, mas não há uma relação simples de causa e efeito entre a cobertura branca vista do espaço e toda a floração esperada para as próximas semanas.
Onde o Deserto Florido poderá ser visto?
As autoridades chilenas projetam manifestações do fenômeno em uma ampla faixa da Região de Atacama, aproximadamente entre Caldera e Freirina.
Cinco áreas estão entre os pontos preparados para orientação e observação:
- costa de Freirina;
- costa de Huasco;
- Parque Nacional Llanos de Challe;
- Parque Nacional Desierto Florido;
- setor de Travesía, em Copiapó.
Para quem pensa em viajar, existe um detalhe importante: não basta chegar ao Atacama esperando encontrar flores por toda parte.
A floração acontece de maneira irregular e muda conforme localização, altitude e condições ambientais. Alguns acessos também foram afetados pelas chuvas, e as autoridades recomendam consultar as condições das estradas antes do deslocamento.
O Parque Nacional Desierto Florido, cerca de 30 quilômetros ao sul de Copiapó, funciona atualmente de terça-feira a domingo, das 9h às 18h, segundo a CONAF.
Quem visitar o Deserto Florido precisa tomar alguns cuidados
O espetáculo dura pouco e é extremamente vulnerável.
Visitantes são orientados a permanecer nas trilhas e estradas autorizadas, não estacionar sobre áreas vegetadas, não arrancar flores, sementes ou bulbos e evitar levar animais de estimação às zonas protegidas.
Também não é recomendado alimentar animais silvestres, e todo o lixo deve ser retirado da área visitada.
Uma pisada fora da trilha pode destruir justamente uma planta que passou meses ou muito mais tempo esperando pela água necessária para aparecer.
Essa talvez seja a parte mais surpreendente da transformação do Atacama.
O branco registrado pelos satélites mostrou o que uma tempestade conseguiu fazer em poucos dias. As flores revelam algo mais lento: a vida que permaneceu escondida no solo esperando uma oportunidade para voltar à superfície.







