Braskem pede recuperação por dívida de US$ 10,9 bilhões e ações serão retiradas de índices da B3

Petroquímica tenta reorganizar uma dívida financeira bilionária enquanto ações chegam à mínima histórica; fornecedores e clientes seguem fora da recuperação anunciada pela companhia.

A Braskem abriu nesta segunda-feira, 24 de agosto, uma nova etapa na tentativa de reorganizar suas finanças. O Conselho de Administração aprovou o pedido de recuperação extrajudicial para tratar de aproximadamente US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras, valor próximo de R$ 56 bilhões pela cotação utilizada nas primeiras divulgações do dia.

A decisão teve efeito imediato no mercado. As ações preferenciais da companhia, negociadas pelo código BRKM5, chegaram a cair cerca de 8% durante o pregão e tocaram R$ 4,02, mínima histórica.

Ao mesmo tempo, a B3 anunciou a retirada dos papéis da empresa de diferentes índices. Para clientes, fornecedores e trabalhadores, porém, existe uma informação central: a recuperação tem escopo financeiro e não determina paralisação das operações.

O que a Braskem pretende com a recuperação extrajudicial

Segundo a companhia, o objetivo é criar uma estrutura jurídica que permita negociar e implementar a reestruturação das dívidas financeiras incluídas no processo.

A empresa já vinha discutindo sua estrutura de capital com credores e havia conseguido, em junho, proteção judicial temporária contra determinadas execuções.

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O prazo de 60 dias terminou nesta segunda-feira.

A recuperação extrajudicial abre espaço para que Braskem, bancos e detentores de títulos continuem negociando condições de pagamento, garantias e possíveis alterações na estrutura da dívida.

Fornecedores e clientes continuam sendo atendidos

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Uma das primeiras dúvidas provocadas pela notícia é se pagamentos, fornecimentos ou entregas podem ser interrompidos.

A Braskem informou que a medida possui escopo estritamente financeiro e não inclui as obrigações mantidas normalmente com fornecedores, clientes e outros participantes ligados à operação.

Contratos comerciais que não fazem parte da dívida incluída na reestruturação continuam vigentes.

O pedido também não significa que as fábricas da petroquímica deixarão de operar automaticamente.

Recuperação extrajudicial não significa falência

Recuperação extrajudicial e falência são procedimentos diferentes.

Na recuperação, a empresa busca renegociar dívidas para continuar funcionando e adequar seus compromissos financeiros à capacidade de pagamento.

O acordo é negociado com credores e posteriormente levado à Justiça para homologação, desde que cumpra os requisitos legais.

A falência envolve outra etapa, ligada à impossibilidade de continuidade da empresa e à liquidação de patrimônio para pagamento dos credores.

Esse não é o procedimento anunciado pela Braskem nesta segunda-feira.

Ações chegam à mínima histórica e B3 retira papéis de índices

A reação dos investidores apareceu poucas horas depois da divulgação.

As ações BRKM5 chegaram a cair cerca de 8% e tocaram R$ 4,02, menor valor histórico registrado durante o pregão.

A B3 também informou que os papéis BRKM3 e BRKM5 serão excluídos dos índices dos quais fazem parte, incluindo o Ibovespa e outros índices da Bolsa.

A retirada passa a valer após o pregão de terça-feira, 25 de agosto.

A mudança importa porque fundos que acompanham índices precisam ajustar suas carteiras quando uma empresa deixa de fazer parte deles.

Quem tem mais poder na negociação da dívida da Braskem

A composição da dívida ajuda a explicar por que fechar um acordo pode ser difícil.

Levantamentos divulgados após o pedido apontam que aproximadamente:

  • 65% da dívida estão relacionados a detentores internacionais de títulos;
  • cerca de 27% estão ligados a bancos e agências;
  • o restante aparece distribuído entre debêntures, CRA e outros instrumentos.

Os detentores internacionais de títulos, conhecidos como bondholders, concentram a maior parcela do passivo incluído nas estimativas divulgadas.

Para avançar com a reestruturação, a Braskem precisará ampliar o apoio entre os credores dentro das classes consideradas no processo. Como o peso das decisões está relacionado ao valor financeiro dos créditos, os maiores grupos possuem influência relevante sobre o acordo.

Petrobras aparece como peça importante nas negociações

A Petrobras é uma das principais acionistas da Braskem e mantém relação comercial estratégica com a petroquímica.

Parte dessa relação envolve o fornecimento de nafta, matéria-prima utilizada na fabricação de produtos petroquímicos.

Segundo apuração publicada pela Veja, uma nova estrutura para os contratos entre Petrobras e Braskem pode reduzir a necessidade de aproximadamente US$ 2 bilhões em garantias relacionadas à compra desse insumo.

Caso esse desenho avance, a empresa poderá aliviar parte da pressão sobre linhas bancárias sem depender imediatamente de um aporte direto do mesmo tamanho.

Como uma empresa que teve lucro chegou à recuperação

A situação chama atenção porque a Braskem apresentou melhora nos resultados recentes.

No segundo trimestre de 2026, a companhia registrou lucro líquido de aproximadamente R$ 3,3 bilhões e receita superior a R$ 21 bilhões.

Lucro, porém, não elimina automaticamente uma dívida elevada.

Dados financeiros divulgados nesta segunda-feira também apontam patrimônio líquido negativo em aproximadamente R$ 13 bilhões, enquanto a empresa continua pressionada pelo custo da dívida, despesas financeiras, passivos ligados ao afundamento do solo em Maceió e dificuldades enfrentadas pela indústria petroquímica.

Parte relevante das obrigações também está denominada em moeda estrangeira, deixando as contas mais expostas às variações do dólar.

O que precisa acontecer nos próximos 90 dias

O pedido apresentado à Justiça não significa que a reestruturação já esteja definida.

A Braskem terá agora um período decisivo para negociar com diferentes grupos de credores e construir um plano capaz de reunir o apoio necessário.

Entre os principais pontos estão:

  • novos prazos para pagamento;
  • condições para juros e vencimentos;
  • garantias oferecidas aos credores;
  • possível entrada de novos recursos;
  • eventuais alterações na estrutura de capital.

Uma oferta de ações também aparece entre as possibilidades mencionadas em apurações de mercado, mas não foi anunciada como decisão definitiva pela companhia.

Para fornecedores e clientes, a operação continua normalmente segundo a Braskem. Para investidores e credores, a questão central passa a ser outra: qual dívida a petroquímica conseguirá carregar sem comprometer novamente sua geração de caixa.

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