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Nelson de Souza Lima » Entretenimento
2 semanas atrás

O caos distópico de “subterrâneo”

Trilogia da escritora Anne C. Beker critica governos que manipulam informações buscando se perpetuar no poder.

O caos distópico de “subterrâneo”
Foto: Divulgação

Segundo o dicionário, distopia é “qualquer representação ou descrição social, cujo valor promove a vivência em cenários assustadores e pessimistas, com governos totalitários, retirando dos cidadãos todo direito fundamental”.
Na contramão da utopia, cuja ordem social é pacífica, ideal e igualitária, oprime a sociedade em tramas futuristas/sombrias em virtude da decadência do ser humano e da natureza, onde disfunção e distorção das leis é a regra.

Surgida como conceito filosófico ganhou a literatura, se tornando gênero recorrente. Ao longo dos anos inúmeros livros viraram clássicos da distopia ficcional, entre eles, os necessários “1984” e “A Revolução dos Bichos’, de George Orwell, “O Processo”, de Franz Kafka, “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley e “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury.

Prometendo engrossar esse filão a escritora paulistana Anne C. Beker mostra em “Subterrâneo” o quanto governos totalitários e opressores sempre buscarão se perpetuar no poder, usando para isso violência, manipulação, filtragem e distorção de informações.

Com o primeiro volume lançado em 2021 a autora deve disponibilizar o segundo no primeiro trimestre deste ano e o terceiro ainda sem previsão de chegada às livrarias.

Amante das letras, Beker é formada em endocrinologia infantil há mais de vinte anos, porém a literatura a acompanha desde criança.

“Eu tinha uma professora de português do colégio que achava que eu ia ser escritora. Mas o caminho entre escrever e publicar foi longo. Principalmente a parte de ter coragem de publicar e dar o que eu escrevia para alguém ler. Receio do julgamento, de ninguém gostar. Então, demorou um pouco. Fiz alguns cursos de escrita e roteiro para melhorar a técnica e, finalmente, criei coragem em 2020. Quanto a ser médica, eu quis ser médica desde a sétima série. Era muito relacionado a minha vontade de ajudar as pessoas. Hoje, como autora, muitas vezes eu ainda deixo os livros em e-book grátis, para ajudar as pessoas a ler”, diz.

Sobre “Subterrâneo” a escritora fala que independente do regime de governo o que importa são os objetivos de quem ocupa o poder.

“No livro, a governante faz tudo por poder não importando o que ela precisa fazer para manter o poder. Vemos isso ocorrendo no mundo atual. Além disso, em “Subterrâneo”, as informações dadas à população são filtradas e manipuladas, de certa forma, isso pode acontecer a qualquer momento em nosso mundo também. Acho que o filme

“Não olhe para cima” com Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence, aborda bem estes aspectos, claro que com uma crítica diferente, mas há similaridades”, atesta.

Abaixo a entrevista completa com Anne C. Beker.

Regional News – Gostaria que falasse da sua educação. Você foi precoce no tocante à leitura e à escrita, sempre envolvida com livros e letras. Sua educação foi bem estruturada, pois deve ter sido incentivada dos pais. Passando para o cenário atual em que a pandemia virou o planeta de ponta-cabeça e comprometeu a educação de milhões de crianças, que já era questionável, como você vê o cenário educacional pós-pandemia e o que mudar?

Anne C. Beker – Acho que já tínhamos uma diferença considerável em relação à educação antes da pandemia, mas durante a mesma tudo se intensificou. O estudo ficou todo on-line, dependendo de computadores e internet, o que sabemos ser de diferente acesso em muitos lugares do país. Acredito que esses anos vão ser um gap no estudo e educação dessas crianças e adolescentes, que precisamos pensar em como recuperar e o que fazer diferente. Melhorar o ensino público e privado, talvez cotas no ensino fundamental e médio, talvez explorar melhor as plataformas de ensino que poderiam ter aulas e suporte online. Na verdade, a resposta e a solução não são fáceis. Não existe uma fórmula mágica, vamos ter que colocar a educação como uma prioridade.

RN– Antes da escrita você se formou em medicina (Endocrinologia pediátrica). Tinha o desejo de ser médica pediatra, mas o sonho de virar escritora sempre te acompanhou? Fale sobre isso, por favor?
ACB– Eu sempre gostei de ler e escrever, desde adolescente. Eu tinha uma professora de português do colégio que achava que eu ia ser escritora. Mas o caminho entre escrever e publicar foi longo. Principalmente a parte de ter coragem de publicar e dar o que eu escrevia para alguém ler. Receio do julgamento, de ninguém gostar. Então, demorou um pouco. Fiz alguns cursos de escrita e roteiro para melhorar a técnica e, finalmente, criei coragem em 2020. Quanto a ser médica, eu quis ser médica desde a sétima série. Era muito relacionado a minha vontade de ajudar as pessoas. Hoje, como autora, muitas vezes eu ainda deixo os livros em e-book grátis, para ajudar as pessoas a ler.

RN– “Subterrâneo” é seu primeiro lançamento? Na adolescência escreveu poemas. Pretende um dia enveredar para a poesia?
ACB– O meu primeiro lançamento foi “Revisitando o passado”, “Subterrâneo” foi o segundo. São estilos diferentes e em 2021 lancei uma fantasia, “Noite e Chamas”. Não pensei em voltar às poesias de novo. Acho que acabei focando o aprendizado em contar histórias, mas ainda é uma possibilidade.

RN– Com “Subterrâneo” você aborda um futuro distópico no qual a sociedade é oprimida por um governo cruel o qual visa seus interesses e nenhuma preocupação em sacrificar os menos favorecidos. De certa forma vivemos uma situação política atual na qual o governo comanda visando mais seu próprio bem estar. Cite algumas características entre o livro e nossa atual situação política.
ACB– Acho que o livro faz uma crítica a vários aspectos de vários governos e também às fontes de informação. Em “Subterrâneo”, percebemos que não importa a forma de governo e sim quem o ocupa e quais os objetivos dessa pessoa. No livro, a governante faz tudo por poder não importando o que ela precisa fazer para manter o poder. Vemos isso ocorrendo no mundo atual. Além disso, em “Subterrâneo”, as informações dadas à população são filtradas e manipuladas, de certa forma, isso pode acontecer a qualquer momento em nosso mundo também. Acho que o filme “Não olhe para cima” com Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence, aborda bem estes aspectos, claro que com uma crítica diferente, mas há similaridades.

RN– Dan Brown (O Código Da Vinci) é seu autor favorito. Pode citar outros escritores e obras que te influenciaram para escrever “Subterrâneo”?
ACB– Para “Subterrâneo”, a história mesmo, tive influência de livros, filmes e séries. Posso citar aqui os livros “Jogos Vorazes” e “Divergente”, os filmes “Gattaca” e “Matrix” e séries como “The 100”. Acho que vale citar também uma referência histórica. Uma das coisas que mais me deixou irritada na história antiga, foi o fato que na Esparta antiga as pessoas que não servissem para o exército serem jogadas de um precipício. Como em “Subterrâneo” não tem precipício, surgiu a plataforma.

RN– A ideia da obra surgiu da conversa com uma prima. Fale sobre isso, por favor.
ACB– Essa parte é difícil de falar sem dar spoilers, mas estávamos discutindo um mundo distópico e várias distopias, inclusive em vídeo games, e fomos estruturando o mundo em si. A história acabou vindo depois. Eu tinha escrito de uma forma diferente há uns seis anos, o início e depois mudei para o que ficou atualmente.

RN– A protagonista do livro (Carolina) é uma jovem ousada e decidida. Em quem se baseou para criar a personagem e outros personagens do livro?
b- A Carolina tem uma personalidade muito parecida com a da minha filha, alguns dos outros personagens têm algumas similaridades também com meu filho, comigo mesma, como a Elena que é médica.

RN– A obra será uma trilogia. O segundo volume será lançado no primeiro trimestre de 2022. Pode falar sobre os próximos volumes?
ACB– Os três volumes rodam ao redor dos mesmos temas: distopia, governo, sociedade, do que as pessoas são capazes por dinheiro e poder e como sempre encontramos algumas pessoas com princípios capazes de se posicionar e lutar pelo que acreditam.

RN– Assim como inúmeros outros livros (Senhor dos Anéis, Harry Potter) sua obra também poderia ser adaptada para o cinema. Isso te ocorre ou é um passo de cada vez?
ACB- Eu adoraria que a obra fosse adaptada para TV ou cinema, acho que esse é o desejo de muitos autores e, com certeza, meu também. Mas é um passo de cada vez.

RN- Para encerrar, existe alguma dica ou fórmula para quem gostaria de se tornar escritor?
ACB- Não existe uma fórmula mágica, mas algumas coisas eu poderia dizer para alguém que quer começar. Primeiro, estude narrativas. Não é só ter uma boa história ou uma boa ideia. É como aprender a construir um capítulo e terminar de forma que o leitor tenha curiosidade de seguir na leitura, como construir personagens principais e secundários, como revisar, publicar, ter um capista ou fazer sua própria capa. Hoje são várias possibilidades, o que é muito mais fácil do que antigamente. Mas acima de tudo, é ser gentil com você e escrever algo que você leria e gostaria. Lembrar que você não vai agradar todo mundo e isso é normal e achar o nicho de leitores que gostem do seu estilo de escrita e gênero de livro.

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